Planejamento urbano que gera benefícios coletivos

Artigo de Daniel Araújo
Presidente da FloripAmanhã, empresário e publicitário.

Nas últimas semanas, Florianópolis voltou a discutir seu Plano Diretor, diante de questionamentos sobre a verticalização e edifícios com mais pavimentos no Centro. O debate é legítimo, mas precisa partir de informações corretas. O Plano Diretor não “liberou geral”, nem abriu caminho para uma cidade tomada por arranha-céus. Ao contrário: estabeleceu regras, limites e instrumentos para orientar o crescimento e vincular flexibilizações a benefícios para a coletividade.

A revisão aprovada em 2023 foi resultado de anos de estudos, debates técnicos, audiências públicas e participação social. A FloripAmanhã acompanhou esse processo e apoia suas diretrizes porque entende que uma cidade precisa atualizar suas regras sem abandonar sua identidade e sua responsabilidade ambiental. A legislação de 2025 avançou ao regulamentar e limitar a utilização conjunta dos incentivos urbanísticos, trazendo previsibilidade e segurança jurídica.

Incentivo urbanístico não significa autorização automática para construir mais. É um instrumento contemporâneo de planejamento. O Poder Público pode admitir flexibilizações quando o projeto oferece contrapartidas capazes de melhorar a cidade, como fruição pública, fachadas ativas, preservação do patrimônio, sustentabilidade, conectividade entre ruas, uso misto e espaços qualificados para pedestres.

A fruição pública é um exemplo claro. No modelo tradicional, diferentes volumes podem ocupar grande parte do terreno, deixando áreas livres restritas ao uso privado. Em outra solução, a construção pode ser concentrada em um volume mais compacto, liberando parte do lote para praça, passagem de pedestres, arborização, mobiliário urbano, comércio no térreo e convivência. A área construída pode ser semelhante; o que muda é a implantação e o benefício devolvido à cidade.

Por isso, o debate não deve se limitar à altura. Um prédio mais alto não é, por definição, melhor ou pior. O que importa é sua localização, sua relação com a paisagem, a capacidade da infraestrutura, os impactos, a qualidade da arquitetura e as contrapartidas. Edifícios com mais de 30 pavimentos já fazem parte da realidade de cidades como Chapecó, Curitiba, Goiânia, Belo Horizonte e Fortaleza. Isso não significa que Florianópolis deva copiar qualquer modelo. Cada cidade precisa construir suas soluções, respeitando escala, natureza, história e identidade.

Essa discussão ganha ainda mais sentido diante do conceito da “cidade de 15 minutos”, difundido pelo urbanista Carlos Moreno. A ideia é organizar bairros e centralidades para que as pessoas possam acessar, a pé, de bicicleta ou por transporte público, grande parte do que precisam no cotidiano: trabalho, comércio, educação, saúde, lazer e serviços. Não se trata de restringir deslocamentos, mas de oferecer proximidade, autonomia e qualidade de vida.

Para isso, é necessário aproximar moradia, emprego, serviços e espaços públicos, especialmente em regiões que já contam com infraestrutura. Fortalecer o Centro e outras centralidades pode reduzir deslocamentos, diminuir a dependência do automóvel, apoiar o comércio local e tornar as ruas mais vivas e seguras. Morar perto de onde a vida acontece significa menos tempo no trânsito e mais tempo para a família, o lazer e a convivência.

Há também um benefício ambiental. Quando a cidade cresce de forma dispersa, precisa ampliar ruas, redes de água e esgoto, transporte, escolas e outros serviços. Esse espalhamento aumenta custos coletivos e pressiona áreas ambientalmente sensíveis. Aproveitar melhor a infraestrutura instalada, com planejamento e limites, ajuda a conter essa expansão e a proteger o patrimônio natural da Ilha.

Naturalmente, incentivos urbanísticos precisam de critérios objetivos, limites, transparência e fiscalização. A regulamentação de 2025 avançou ao estabelecer parâmetros mais claros e impedir a sobreposição indiscriminada de benefícios. O princípio deve ser simples: todo incentivo precisa corresponder a um ganho urbano real, acessível e permanente para a população.

O verdadeiro debate, portanto, não é apenas quantos pavimentos um projeto possui, mas que cidade ele ajuda a construir. Respeita a legislação e a paisagem? Cria espaços públicos? Melhora a circulação de pedestres? Fortalece o comércio? Utiliza bem a infraestrutura? Aproxima moradia, trabalho e serviços?

Florianópolis precisa olhar para o futuro com equilíbrio. O progresso só faz sentido quando caminha junto com a preservação. A natureza é o maior patrimônio da nossa Ilha e deve permanecer no centro das decisões urbanas. Planejar bem é permitir que a cidade evolua sem perder aquilo que a torna única, assegurando qualidade de vida hoje e responsabilidade com as próximas gerações.

(ND, 08/08/2026)


Publicado em 10 agosto de 2026

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Artigos, Institucional, Planejamento, Plano Diretor, Radar
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