Gastrodiplomacia: de Nuno Nobre a Narbal Corrêa

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Artigo de Ernesto São Thiago
Advogado atuante em direito da orla e fundador da Destino Náutico Consultoria

Li no jornal Negócios, publicado em Portugal, matéria sobre o consultor Nuno Nobre, fundador do Festival do Ouriço-do-Mar na Ericeira. Ele sustenta que a gastronomia pode ser muito mais do que expressão cultural: é também ferramenta de diplomacia pública, capaz de aproximar povos, afirmar identidades e projetar territórios no cenário internacional. Essa prática recebeu o nome de gastrodiplomacia.

Encontrei Nuno em novembro de 2024, no Congresso Raízes, em Itajaí. Sua apresentação sobre a experiência portuguesa com os ouriços-do-mar inspirou Santa Catarina a avançar na regulamentação da espécie.

Poucos dias depois, participei de uma reunião na Secretaria Executiva de Aquicultura e Pesca com o secretário Tiago Bolan Frigo, os chefes Narbal Corrêa e Janete Borges, pesquisadores e pescadores. Dali resultou a Portaria SAQ 005/2024, que fixou critérios de manejo sustentável, como tamanho mínimo da carapaça, limites de esforço e rastreabilidade.

Enquanto Nuno projetava a Ericeira no circuito internacional, percebi o paralelo com o trabalho do chefe Narbal Corrêa, que atua como verdadeiro embaixador de Florianópolis desde que a cidade recebeu o título de Cidade Criativa da Gastronomia da Unesco.

Narbal já levou a identidade da Ilha a encontros globais, como em Macau, e lançou o livro bilíngue “Florianópolis Cidade Criativa Unesco da Gastronomia”, que sistematiza a história e a diversidade culinária local como patrimônio cultural e ativo internacional.

Esse percurso ganha agora um marco simbólico. Ontem, Florianópolis sediou o “Mar de Uni”, primeiro omakase brasileiro inteiramente dedicado ao ouriço-do-mar negro catarinense. Sob comando de Mateus Proença e Pedro Soares, o jantar traduziu em alta gastronomia a articulação entre pescadores, ciência e política pública.

De um lado, a regulamentação conquistada; de outro, o avanço científico da UFSC, que conseguiu fechar em laboratório o ciclo reprodutivo da espécie sob a liderança do professor Cássio de Oliveira Ramos.

Como afirmou o próprio Nuno Nobre, “o Mar de Uni mostra que a gastronomia brasileira pode dialogar com padrões técnicos internacionais sem abrir mão de identidade e compromisso ecológico”. Essa é, para mim, a essência da gastrodiplomacia: transformar biodiversidade em ativo cultural, tradição em valor global e chefs em porta-vozes de territórios.

Em Portugal, esse papel é exercido por chefes como Nuno Nobre. Em Santa Catarina, cabe a Narbal Corrêa, que coloca Florianópolis no mapa mundial não apenas como produtora de ostras e ouriços, mas como protagonista de uma diplomacia que se faz à mesa.

(ND, 02/10/2025)


Publicado em 02 outubro de 2025

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