Boas cidades nascem de bons exemplos
Artigo de Marcelo Consonni Gomes
CEO da Hurbana – Cidade para as pessoas
Florianópolis vive um momento decisivo. Raramente se discutiu com tanta profundidade o futuro da cidade: como harmonizar o ambiente natural com o construído, acolher quem mora aqui e quem deseja vir, gerar oportunidades sem sacrificar qualidade de vida. Em outras palavras: que cidade queremos deixar para nossos filhos?
A boa notícia é que Florianópolis já conhece, na prática, o que funciona. O Passeio Primavera transformou um trecho comum da cidade em ponto de encontro. O Armazém Rita Maria devolveu vida a um patrimônio esquecido. A Praça dos Bombeiros e a Praça do Forte São Luís, revitalizadas, mostram o mesmo fenômeno: quando o espaço urbano é qualificado, o comércio se fortalece, as pessoas se encontram e nasce um pertencimento que nenhum condomínio fechado replica. São lugares onde a cidade conversa com a rua — e a rua responde.
O Plano Diretor recentemente atualizado traz as ferramentas para multiplicar esses exemplos. O uso misto permite que um mesmo edifício abrigue moradia, trabalho e comércio. As fachadas ativas e a fruição pública abrem os empreendimentos para a rua, em vez de lhe darem as costas com muros e grades. E a outorga onerosa, talvez o instrumento mais mal compreendido, merece explicação: quem deseja construir acima do potencial básico de um terreno paga por isso ao município — e esse recurso retorna à cidade em praças, calçadas, habitação social e infraestrutura. Parte do valor gerado pelo crescimento é capturada para beneficiar a todos.
Sei que há quem desconfie: mais construção não traria apenas mais trânsito e pressão sobre a infraestrutura? Depende de como se constrói. O crescimento desordenado de fato produz isso. Mas congelar a cidade também tem custo, pago pelos mais jovens e mais pobres: aluguéis impagáveis, deslocamentos longos e ocupações irregulares em áreas frágeis.
O caminho não é escolher entre crescer ou preservar. É crescer com regras que convertam cada empreendimento em ganho coletivo. Mas as regras, sozinhas, não constroem boas cidades. Cabe a nós, empreendedores, engenheiros e arquitetos, ir além do que a lei exige. Cada empreendimento que se abre generosamente para a rua, cada calçada bem construída, cada térreo cheio de vida é um convite para que outros façam o mesmo.
O bom exemplo não espera ser cobrado — ele inspira.
As cidades que admiramos não chegaram lá por acaso. Fizeram escolhas ambiciosas e investiram nos seus espaços públicos. Não basta preservar o que existe; é preciso coragem para construir o que ainda falta. Porque, no fim, a qualidade de uma cidade não se mede pela altura dos seus prédios, mas pela vida que acontece ao nível da rua.
A Florianópolis do futuro será construída edifício por edifício. Mas será lembrada pela vida que acontece entre eles.
(ND, 27/06/2026)
Publicado em 29 junho de 2026