Praça do Avião guarda uma história de quase 65 anos no Centro da Capital

No coração de Florianópolis, a Praça do Avião atravessa gerações como um dos espaços mais conhecidos do Centro da cidade. Oficialmente chamado de Largo Benjamin Constant, o local carrega no nome popular e no mosaico criado pelo artista Hassis a lembrança de um episódio ocorrido há quase 65 anos, quando uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça terminou com a queda de uma aeronave no local.

Era a manhã de 28 de novembro de 1961. A apresentação, uma homenagem à Polícia Militar de Santa Catarina, levou quatro aviões T-6 North American ao céu da Capital. Durante uma manobra, duas aeronaves se chocaram. Uma conseguiu retornar à Base Aérea, enquanto a outra, pilotada pelo tenente aviador Durval Pinto Trindade, caiu na praça.

Aeronaves colidiram pela manhã

Os quatro aviões da Esquadrilha da Fumaça faziam uma manobra conhecida como “Trevo”, que ocorre quando as aeronaves sobem, realizam curvas fechadas e cruzamentos em direções alternadas, acionando a fumaça biodegradável e deixando no céu o desenho que lembra as quatro folhas de um trevo.

Eram 9h33 quando dois aviões colidiram. João Ramos Silva tinha 20 anos, acompanhava o espetáculo e foi testemunha do acidente.

“Eu vi quando eles fizeram essa acrobacia, um cruza por baixo do outro e eles se tocaram. Um deles felizmente conseguiu retornar à Base Aérea, já que o dano foi menor. O avião do tenente Trindade, infelizmente caiu nesse ponto”, lembra João.

O piloto e o berço

O tenente aviador Durval Pinto Trindade era carioca e tinha 27 anos. Os principais jornais da época noticiaram o acidente e destacaram também a perícia do piloto, que conseguiu desviar de uma área com muitas casas, evitando uma tragédia ainda maior.

“O avião bateu bem na praça e entrou no meio da casa do general Rosinha, que ficava na esquina, onde hoje tem um edifício chamado Residencial Vieira da Rosa”, confirma João.

E tem mais. Uma das filhas do general dormia em um dos quartos da casa e foi retirada, por sorte, segundos antes do acidente e de alguns destroços da aeronave atingirem o berço da criança. Por pouco não tivemos mais uma vítima fatal.

O pesquisador da aviação

Silvio Adriani é pesquisador e historiador e se dedica a escrever e publicar a história da aviação em Santa Catarina. Conhece como poucos as realizações e a trajetória da Esquadrilha da Fumaça no Estado.

“Desde a implementação da Esquadrilha em 1952, até os dias de hoje, ocorreram três acidentes em Santa Catarina: Rio Negrinho, Lages e Florianópolis. Esse na Capital foi o primeiro, inclusive. Só na cidade foram mais de 40 apresentações e infelizmente, uma ocorrência”, registra o pesquisador.

Um dos primeiros a chegar

Outra testemunha ocular do acidente foi César Pereira Baixo, na época um garoto de 6 anos. Ao lado da mãe, ele curtia as manobras no céu de Floripa quando perdeu os aviões de vista, ouviu um estrondo e viu fumaça. Como morava a duas quadras, correu até o local e foi um dos primeiros a chegar.

“Na hora que eu cheguei não tinha muita gente. As pessoas começaram a chegar na sequência. Lembro também que ali na rua Alves de Brito, aqui perto, no quintal de uma família tradicional da região, estava caída uma das asas ainda com o trem de pouso, que tinha se desprendido ainda no ar”, revela César.

Ele ainda relembra um fato curioso:

“No exato momento do acidente, tinha uma pessoa, um homem sentado no banco da praça, estudando. Ele foi testemunha, presenciou o impacto, sobreviveu e foi retirado por duas freiras que o levaram para dentro do colégio. Ele meio tonto, pelo susto que ele levou.”

A esquadrilha da alegria

Apesar da tragédia em Florianópolis, a história da Esquadrilha da Fumaça é marcada por alegria, com apresentações que prendem a respiração do público, como vimos há poucas semanas na Capital. Um show que parou a cidade.

“Acho que a Esquadrilha da Fumaça sempre foi motivo de emoção para todos que assistem, mas o tempo é senhor de si, senhor da razão e faz a gente esquecer muita coisa”, comenta João Ramos Silva, destacando que a história do acidente de 1961 não é tão conhecida por parte dos moradores da Ilha.

Homenagem eternizada

Toda a história está eternizada no Largo Benjamin Constant, mais conhecido como Praça do Avião. Uma homenagem em forma de mosaico, com a obra do artista Hassis no chão da praça, traz o desenho do avião com a asa danificada, o modelo da aeronave, a sigla da Força Aérea Brasileira e a data da tragédia.

“Temos muitas histórias. Essa é uma delas. Temos muitas histórias para contar ainda”, finaliza Silvio.

#FICAADICA

Agora que você conhece melhor essa história, quem sabe uma passadinha na Praça do Avião para registrar aquela foto especial? Um capítulo de fatalidade, memória, patrimônio urbano e identidade manezinha, gravado no coração da cidade.

(ND, 21/08/2026)


Publicado em 21 agosto de 2026

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Cultura, Radar
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