“A universidade tem que ser plural, não ideológica”, afirma reitor da UFSC
Da Coluna de Fabio Gadotti (fabiogadotti.net, 18/08/2026)
Há pouco mais de um mês no cargo, o reitor Amir de Oliveira Júnior está fazendo um levantamento sobre os contratos em vigor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e no início de uma reforma administrativa, que acaba de ser aprovada pelo Conselho Universitário. Nesta conversa com a coluna, antes de sua fala no almoço estratégico do Floripa Sustentável, nesta segunda-feira (17), Amir falou sobre orçamento, revisão de contratos e acirramento ideológico. “A universidade tem que ser plural, não pode ser ideológica. O que defendemos na universidade é exatamente isso: a liberdade de expressão”, afirmou.
Quais os destaques da mudança administrativa na estrutura da UFSC que acaba de ser aprovada no início da sua gestão?
Amir Oliveira – A principal mudança é o fortalecimento de algumas funções estratégicas. O planejamento, a execução orçamentária, a análise do orçamento e do que gastamos. Planejamento, transparência e execução orçamentária são pontos importantes. Os outros níveis estão relacionados à gestão direta da universidade.
Reestruturamos a infraestrutura para ganhar o status de secretaria. A Secretaria Ambiental passou a ser uma secretaria não só dedicada à reciclagem e às espécies vivas da universidade, mas também ao enfrentamento das mudanças climáticas e aos relacionamentos externos da universidade.
Por fim, a Secretaria de Inovação, que era uma coordenadoria dentro da área de pesquisa, agora se torna secretaria e passa a ter uma atividade mais transversal em relação às demais áreas. A inovação também passa a acumular o relacionamento externo. Isso vai nos dar uma maior garantia de gestão eficiente para a universidade.
Em termos orçamentários, como a instituição vai conseguir tocar até o final do ano?
Amir Oliveira – A universidade vai conseguir tocar até o final de 2026. Estamos executando um orçamento criado em 2026, que vem sofrendo modificações e contingenciamentos ao longo do ano, mas vamos executá-lo até dezembro.
O que estamos fazendo? Melhorando todos os nossos contratos e melhorando a eficiência da gestão desse orçamento.O orçamento vem formatado pelo governo federal, não temos ampla liberdade de movimentação orçamentária. Podemos e devemos executá-lo com eficiência e com garantias. Esse é o nosso trabalho principal.
Pode acontecer de o governo federal, inclusive, reduzir o nosso teto orçamentário, o que causa um estrangulamento. Então, é bastante importante sermos capazes de gerenciar bem o teto de receitas próprias.
O senhor já vem conversando com o Ministério da Educação sobre isso?
Amir Oliveira – Sim, temos conversado com o ministério e trabalhado nacionalmente com a Andifes, que é o órgão dos reitores, e com a Secretaria de Educação Superior. Temos feito isso, mas muito do que fazemos é definido por lei federal. Então, tem um trabalho político a ser feito, mas pouca margem de gerenciamento local.
Os contratos estão sendo avaliados?
Amir Oliveira – Estamos trabalhando em todos eles. A universidade tem contratos significativos: de limpeza, de vigilância, o próprio contrato de plano de saúde. E estamos fazendo uma revisão, sempre pensando no melhor para a administração da universidade. É um trabalho cuidadoso, de olho no orçamento e nas demandas.
Nos últimos anos houve um acirramento da discussão ideológica na universidade. Qual sua avaliação sobre esse cenário e como “pacificar”?
Amir Oliveira – A gente sempre deve lembrar que a instituição não tem ideologia. Ela não pode ter ideologia. A instituição tem que ser aberta à discussão de todos os temas importantes para a sociedade. Qualquer que seja o tema relevante para a sociedade, qualquer que seja o tema que precisa ser discutido. Precisamos avançar em soluções.
A universidade tem que ser o primeiro lugar onde você encontra condições de fazer uma discussão ampla e aberta, ouvir especialistas, avaliando todas as informações para chegar a um conjunto de soluções para a sociedade. A universidade não resolve os problemas, mas cria um conjunto de soluções que cabe ao meio externo, à classe política e às organizações sociais apreciar e adotar aquilo que é mais importante.
Para isso, a universidade tem que ser plural, não pode ser ideológica. O que defendemos na universidade é exatamente isso: a liberdade de expressão, limitada pelo respeito, pelo saber ouvir e saber falar, e pela ausência de qualquer tendência ao totalitarismo. Uma universidade que possa discutir de maneira aberta todos os temas.
Publicado em 19 agosto de 2026