O ilhéu e o mundo

Artigo de Rodrigo Sabatini
Presidente do Instituto Lixo Zero Brasil

Existe algo curioso em quem nasce numa ilha. Talvez porque o horizonte esteja sempre presente, talvez porque o mar conecte e separe, o ilhéu aprende cedo a viver dentro de certos limites. A ilha cria pertencimento, identidade e comunidade. Mas também pode reduzir a percepção da própria dimensão. Quem vive cercado por beleza acaba naturalizando a beleza.

O morador já não fotografa a paisagem que encanta o visitante. O pescador já não se impressiona com a baía. A excelência vira cotidiano. E o cotidiano, muitas vezes, torna-se invisível.

Nas últimas semanas, tive a oportunidade de visitar algumas das mais importantes referências mundiais em sustentabilidade e economia circular na Itália e participar do Global Zero Waste Forum, em Istambul, reunindo representantes de governos, universidades, organismos internacionais e cidades de diversos países. Em todos esses espaços vivi a mesma experiência.

Quando Florianópolis era mencionada, não aparecia como uma cidade que pretende ser referência. Aparecia como uma referência.

Não porque tenha resolvido todos os seus desafios. Mas porque conseguiu construir algo raro: uma visão coletiva de futuro.

Recentemente, Florianópolis foi reconhecida pelas Nações Unidas entre as cidades que avançam rumo ao Lixo Zero. Mais importante que o reconhecimento em si foi a constatação de que o mundo começou a enxergar qualidades que muitas vezes nós mesmos deixamos de perceber.

Isso me fez lembrar de uma conversa em que sugeri nomes da própria engenharia sanitária da UFSC para a curadoria de um congresso técnico. A resposta foi imediata: “Não, queremos alguém de fora.”

Imagine Boston recusando um pesquisador de Harvard ou do MIT apenas por ser de Boston. Talvez nosso desafio não seja apenas ambiental, econômico ou tecnológico. Talvez seja cultural.

Precisamos aprender a reconhecer nossas próprias virtudes. Porque o reconhecimento internacional não cria valor. Ele apenas revela valor.

O programa Florianópolis Lixo Zero é um exemplo disso. Não nasceu de uma única instituição ou liderança. É resultado do trabalho de educadores, catadores, pesquisadores, empreendedores, gestores públicos e cidadãos que, ao longo dos anos, construíram uma cultura de cuidado com a cidade.

No fundo, estamos falando sobre cidadania. Sobre compreender que cuidar da praia, da rua, da praça, da água e dos resíduos é também cuidar das pessoas.

O ilhéu precisa cruzar o mar não para deixar de ser ilhéu, mas para compreender a grandeza da sua própria ilha. E talvez este seja um dos momentos mais importantes da nossa história coletiva: quando olhamos para o mundo e, através dos olhos dele, finalmente começamos a enxergar a nós mesmos.

(ND/ 02/06/2026)


Publicado em 02 julho de 2026

Categorias:
Artigos, Cultura, Meio Ambiente, Radar
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