Florianópolis redescobre o centro e aposta em uma cidade feita para as pessoas
Florianópolis discute há décadas soluções para o trânsito, mobilidade e qualidade de vida. Mas um conceito que vem ganhando espaço em cidades ao redor do mundo propõe uma mudança na perspectiva: ao invés de encurtar o caminho dos carros, aproximar as pessoas de tudo o que elas precisam no dia a dia.
Resolver a rotina sem depender do carro, caminhar até a escola, passar na farmácia, encontrar serviços, praticar atividade física e voltar para casa em poucos minutos é o que defende o conceito “Cidade de 15 Minutos”.
Criado pelo urbanista franco-colombiano Carlos Moreno, o modelo de urbanismo parte da premissa de permitir que as pessoas tenham acesso às principais necessidades em trajetos curtos.
Mais do que uma solução para o trânsito é construir cidades mais humanas, onde as ruas voltam a ser espaços de convivência, encontro e permanência, onde as pessoas possam viver, trabalhar, estudar e se exercitar.
Paris, na França, se tornou uma das principais referências mundiais dessa abordagem. A capital francesa passou por transformações voltadas à valorização dos bairros, da mobilidade ativa e dos serviços de proximidade.
Embora o conceito tenha ganhado notoriedade em grandes centros internacionais, esse movimento pode ser observado em Florianópolis, especialmente na região central da cidade.
No entorno da Avenida Rio Branco e da Rua Dom Jaime Câmara, o futuro empreendimento batizado de Monumental, que terá 35 andares e aproximadamente 156 metros de altura, da RBV Incorporadora, já vêm sendo pensado a partir da lógica da proximidade de moradia à diversidade de serviços.
Na região, em poucos minutos de caminhada é possível acessar escolas tradicionais como Colégio Catarinense, Colégio Menino Jesus e Colégio Bom Jesus, além de farmácias, supermercados, clínicas, bancos, restaurantes, cafeterias, equipamentos culturais e serviços públicos.
A Beira-Mar Norte como vizinha também amplia as possibilidades para quem busca uma rotina mais ligada ao bem-estar. Caminhadas, corridas, passeios de bicicleta e atividades ao ar livre fazem parte do cotidiano de milhares de moradores.
Essa combinação entre moradia, infraestrutura urbana, serviços e lazer contribui para uma dinâmica cada vez mais valorizada por famílias e profissionais que buscam reduzir a dependência do automóvel e ampliar a autonomia no dia a dia.
A proposta acompanha um movimento observado em cidades que passaram por processos de revitalização bem-sucedidos: devolver às ruas às pessoas.
Tempo para viver
A discussão sobre a “Cidade de 15 Minutos” tem mais relevância em um cenário em que a mobilidade urbana continua sendo um dos principais desafios das cidades brasileiras.
Santa Catarina é o estado brasileiro onde mais pessoas utilizam o automóvel como principal meio de transporte para ir ao trabalho. Os dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, revelam que 48% da população se desloca de carro.
Como consequência, o congestionamento. E, horas gastas no trânsito significam menos tempo para a família, atividades físicas, lazer e para o convívio social.
Nesse contexto, cresce a valorização de bairros e regiões que oferecem autonomia para os moradores resolverem boa parte da rotina sem grandes deslocamentos.
Caminhar faz parte da construção de cidades mais humanas
O fortalecimento da caminhabilidade é um dos pilares desse novo urbanismo. O conceito defende cidades desenhadas para as pessoas, onde caminhar deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma escolha natural.
Além dos benefícios ligados à mobilidade, cidades caminháveis contribuem para a saúde física, o bem-estar mental, a convivência social e a vitalidade econômica dos bairros. A escritora e ativista Jane Jacobs, referência mundial em planejamento urbano, defendia que a presença constante de pessoas nos espaços públicos cria ambientes mais seguros e acolhedores.
Jacobs também sustentava que os centros urbanos devem ser pensados como ecossistemas vivos e complexos, focados nas pessoas, em vez de priorizar carros.
A sua teoria dos “olhos da rua” destaca que cidades vivas são construídas pela circulação cotidiana de moradores, trabalhadores e visitantes.
Esse pensamento tem influenciado, desde então, projetos urbanos em diferentes partes do mundo, especialmente em regiões que buscam recuperar áreas centrais e fortalecer a ocupação dos espaços públicos.
Qualidade de vida está no centro das discussões sobre o futuro de Florianópolis
O debate sobre proximidade urbana também conversa com as estratégias de planejamento de longo prazo para Florianópolis. A Prefeitura lançou o programa Floripa 400, iniciativa que projeta o desenvolvimento da Capital até o aniversário de 400 anos da cidade, em 2074.
Entre os eixos apresentados estão conceitos como cidade conectada, cidade saudável, cidade sustentável e melhoria da caminhabilidade urbana.
A proposta busca estimular uma visão de futuro baseada em qualidade de vida, inclusão, ocupação qualificada dos espaços públicos e fortalecimento da relação entre pessoas e cidade.
A discussão acompanha uma tendência observada em diferentes partes do mundo: centros urbanos que durante décadas foram planejados para os automóveis começam a reposicionar as pessoas como protagonistas.
(DeOlhonaIlha, 07/06/2026)
Publicado em 08 junho de 2026