A Ponte que Abraça a Memória

Artigo de Dr Luiz Alberto Silveira
Médico, membro da Academia de Medicina e de Letras e associado da FloripAmanhã

Aos cem anos, a velha senhora de aço continua suspensa entre margens e memórias, como quem sustenta não apenas o trânsito dos homens, mas também o invisível movimento das saudades. A Ponte Hercílio Luz chega ao seu centenário com a dignidade das obras que ultrapassam a utilidade e se transformam em alma coletiva. Não é apenas ponte: é travessia do tempo.

Quando foi inaugurada, em treze de maio de mil novecentos e vinte e seis, abriu caminhos entre a Ilha de Santa Catarina e o continente. Mas, sem perceber, abriu também passagens interiores. Desde então, cada catarinense guarda dentro de si uma pequena ponte feita de lembranças: o primeiro olhar sobre a Baía Norte, o vento salgado tocando o rosto, a luz do entardecer desenhando rendas metálicas sobre o céu da cidade.

Idealizada por Hercílio Luz e concebida pelos engenheiros Robinson e Steinmann, ela tornou-se mais do que marco da engenharia nacional. Tornou-se símbolo afetivo de Florianópolis, uma espécie de coração suspenso entre águas.

E agora, cem anos depois, a cidade inteira parece desejar abraçá-la.

No dia nove de maio de dois mil e vinte e seis, às dezesseis horas, na cabeceira insular, homens, mulheres, crianças, artistas, leitores, fotógrafos, moradores e visitantes formarão um círculo de afeto em torno da ponte. O Abraço Centenário não será apenas um gesto coletivo. Será um agradecimento silencioso àquilo que permanece.

A FloripAmanhã une-se às celebrações como apoiadora desta homenagem, reafirmando o compromisso com a preservação da memória urbana, da identidade cultural e do pertencimento que faz uma cidade reconhecer-se em seus próprios símbolos.

Ali, diante da estrutura centenária, haverá livros, música, fotografia, contemplação e bênçãos. O lançamento da obra Os 100 anos da Ponte Hercílio Luz, de José Braz da Silveira, abrirá caminhos entre história e emoção. Depois, o ato ecumênico conduzido pelo Pe. Vilson Groh elevará palavras ao vento da baía, como preces destinadas ao tempo. Em seguida, o abraço. Um instante em que muitas mãos tentarão tocar aquilo que a cidade inteira sente, mas nem sempre consegue dizer.

E enquanto o sol descer lentamente atrás dos morros, a ponte parecerá ainda mais viva. Como se suas vigas guardassem vozes antigas, passos esquecidos, buzinas de outros tempos, promessas de partidas e reencontros.

As comemorações seguirão durante todo o mês de maio. Feiras literárias, exposições, corais, procissões, espetáculos de dança, apresentações musicais e encontros culturais espalharão pela cidade a consciência de que patrimônio não é apenas aquilo que se preserva com concreto e aço, mas aquilo que permanece habitando o imaginário das pessoas.

Celebrar o centenário da Ponte Hercílio Luz é reconhecer que algumas obras vencem o tempo porque foram construídas também dentro do coração humano. E talvez seja esta a sua maior engenharia: unir margens visíveis e invisíveis, aproximar passado e futuro, ensinar que uma cidade só permanece inteira quando cuida das suas memórias.

Florianópolis não abraçará apenas uma ponte.

Abraçará a si mesma.


Publicado em 08 maio de 2026

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Artigos, Cultura, Radar
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