Encontros à beira d’água
Artigo de Valério Gomes Neto
Empresário
Uma marina pode ser apenas um lugar para guardar barcos ou um lugar onde as pessoas queiram estar. Essa diferença, aparentemente simples, é o que separa um projeto náutico convencional de um verdadeiro waterfront, uma orla.
A qualidade de um projeto à beira d’água não depende apenas da infraestrutura, dos píeres ou da quantidade de embarcações que consegue receber. Depende, sobretudo, da ambiência que oferece às pessoas. Da capacidade de atrair pessoas para caminhar, tomar um café, encontrar amigos, ou contemplar o movimento perto da água.
É curioso como esse desafio se aproxima de um dos maiores princípios do bom urbanismo: a fachada ativa. Uma boa rua precisa de portas, vitrines, gastronomia, mesas, sombra, marquises baixas e gente e, também, aconchego e diversidade para criar o desejo de permanecer.
Na beira d’água acontece exatamente o mesmo. Mas poucos projetos náuticos entregam essa experiência, porque muitas marinas se tornam boas guardarias de barcos, mas continuam distantes da gastronomia, da convivência e daquele desejado “buxixo” que dá vida aos lugares.
No Mediterrâneo francês e italiano há ótimas referências. O Port de Saint-Tropez, na Riviera Francesa, Bonifácio, na Córsega, e Porto Cervo, na Sardenha, demonstram como os barcos, cais, comércios, restaurantes e pessoas compartilham o mesmo espaço. O espetáculo não são apenas os barcos, é a vida acontecendo ao redor deles.
Essa inspiração é importante para o futuro Parque e Marina Beira-Mar, em Florianópolis. Mais do que construir uma marina, temos a oportunidade de criar uma nova relação da cidade com o mar.
Imaginamos barcos atracados próximos às pessoas. O píer sendo uma verdadeira calçada, com restaurantes e bares a poucos metros das embarcações; as mesas à sombra protegidas por marquises acolhedoras; pessoas caminhando e conversando ao ar livre. Quem está a bordo interage com quem está à mesa e com quem passa pelo cais. Todos participam da mesma cena.
E há ainda outro ingrediente que pode parecer contraditório: o automóvel. Em velocidade bastante reduzida, ele se torna visitante e pode compartilhar alguns espaços e contribuir para o burburinho, mas sem jamais dominar o pedestre.
Tudo próximo e misturado. O vivo convívio entre barcos, pessoas, gastronomia e movimento. Porque estar à beira d’água é muito mais do que ver o mar. É criar razões para chegar, e, principalmente, para ficar.
(ND, 06/09/2026
Publicado em 08 setembro de 2026
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Artigos, Náutica, RadarRadar da Cidade
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