Cidade, igualdade e felicidade

Artigo de Valério Gomes Neto
Empresário

Há quem acredite que a igualdade é produzida apenas por políticas econômicas, mas talvez uma das maiores ferramentas de justiça social esteja diante dos nossos olhos: a cidade. Essa é a mensagem central de “Cidade, Igualdade, Felicidade”, livro do urbanista e ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa (publicado no Brasil pelo Instituto Pereira Passos). Sua tese é simples e poderosa: uma cidade bem planejada é uma das formas mais eficazes de proporcionar igualdade e felicidade às pessoas.

Passamos a maior parte da vida nas cidades. É nelas que caminhamos, estudamos, trabalhamos, convivemos, brincamos e envelhecemos. Assim, a qualidade dos espaços urbanos influencia diretamente a nossa saúde, as oportunidades que temos e até mesmo o nosso grau de felicidade.

Uma boa cidade não é aquela que oferece privilégios a poucos, mas aquela que garante qualidade de vida para todos. Uma praça arborizada, uma calçada segura, um parque bem cuidado, um transporte público eficiente, uma rua agradável para caminhar ou andar de bicicleta são expressões concretas de igualdade. No espaço público, ricos e pobres compartilham os mesmos direitos e desfrutam das mesmas oportunidades.

Jan Gehl costuma dizer que primeiro moldamos as cidades e, depois, elas nos moldam. Gil Peñalosa nos lembra que uma cidade boa para uma criança de oito anos e para um idoso de 80 é uma cidade boa para todos. Tim Gill defende o brincar e a autonomia das crianças como elementos essenciais de uma sociedade saudável. E Ian Goldin vê as cidades como as grandes protagonistas do século 21.

Essas ideias apontam para uma conclusão importante: qualidade de vida não é luxo. É infraestrutura social. É política pública. É desenvolvimento.

No Brasil, onde convivemos com profundas desigualdades, regenerar bairros, valorizar os espaços públicos, recuperar centros urbanos, aproximar moradia, trabalho e lazer e construir cidades mais caminháveis são ações que promovem inclusão e pertencimento. Talvez seja hora de ampliarmos a nossa visão de prosperidade. Mais do que crescimento econômico, precisamos construir lugares onde as pessoas possam viver melhor.

Porque cidades são obras de arte coletivas. E quando são desenhadas para todos, tornam-se as maiores produtoras de igualdade, convivência e felicidade.

(ND, 15/07/2026)


Publicado em 15 julho de 2026

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