Um século conectando passado e futuro
Artigo de Neri dos Santos
Professor e vice-presidente da FloripAmanhã
Neste 13 de maio de 2026, a ponte Hercílio Luz completa um século de história. Mais do que uma obra de engenharia, ela simboliza a decisão estratégica de integrar a Ilha ao Continente e garantir o futuro de Florianópolis. Idealizada por Hercílio Luz, a ponte representou, à época, um salto civilizatório: da dependência das marés e ventos para uma conexão permanente com o território catarinense.
Cem anos depois, o desafio não é mais construir a conexão física, mas redefinir o seu papel na cidade contemporânea. O centenário, celebrado pelo projeto “100 anos de conexão”, não é apenas comemorativo – é prospectivo. A ponte se consolida como um espaço híbrido, onde patrimônio histórico, turismo e mobilidade urbana convergem de forma estratégica.
A modernização da iluminação em LED RGB reposiciona a ponte como ícone visual noturno, reforçando sua vocação turística e cultural. No entanto, seu futuro mais relevante está na mobilidade. A tendência é clara: a ponte Hercílio Luz deixa de ser um corredor de veículos individuais para se tornar um eixo estruturante de mobilidade ativa e coletiva. Pedestres, ciclistas e, potencialmente, um corredor de BRT passam a ocupar centralidade nesse novo modelo, conectando a Ilha ao Continente de forma mais eficiente e sustentável. Esse processo já está em curso.
O modelo de uso gradativo – com tráfego compartilhado em dias úteis e ocupação plena por pessoas nos finais de semana – revela uma transição inteligente: a ponte como infraestrutura e como espaço público. Essa lógica se amplia com a revitalização do lado continental, com mirante, deck e áreas de contemplação, transformando a cabeceira em um verdadeiro portal urbano e qualificando a experiência da travessia.
Ao mesmo tempo, a complexidade da sua estrutura pênsil exige um compromisso permanente com a manutenção preventiva. A preservação da ponte não é apenas uma questão técnica, mas estratégica: garantir sua longevidade é preservar um ativo urbano único de valor histórico, simbólico e funcional.
Nesse contexto, emerge uma oportunidade estratégica ainda pouco explorada: posicionar a ponte Hercílio Luz como um ícone internacional, à semelhança da torre Eiffel, em Paris. Guardadas as diferenças, ambas compartilham um atributo essencial: são estruturas singulares que transcendem sua função original e se tornam símbolos identitários de suas cidades.
A torre Eiffel consolidou-se como um dos monumentos mais visitados do mundo, atraindo milhões de visitantes por ano, com forte presença internacional. Florianópolis possui, na ponte Hercílio Luz, um ativo com potencial semelhante, ainda subexplorado em termos de projeção global. Para avançar nessa direção, será necessário estruturar uma agenda contínua de ativação: programação cultural, eventos de escala internacional, experiências imersivas e uso de tecnologias digitais para narrativas históricas. A ponte pode evoluir de cartão-postal para destino em si.
Essa visão não significa “turistificar” excessivamente o espaço, mas qualificá-lo como um ambiente de convivência urbana, onde moradores e visitantes compartilham experiências. A combinação entre mobilidade ativa, patrimônio histórico e ativação cultural pode posicionar a ponte como um dos mais relevantes espaços públicos do Brasil.
O futuro da ponte Hercílio Luz aponta, portanto, para um novo paradigma: menos fluxo de carros, mais fluxo de pessoas; menos passagem, mais permanência; menos isolamento, mais integração metropolitana. Celebrar seus 100 anos é reconhecer que a sua maior contribuição ainda está por vir.
(ND, 13/05/2026)
Publicado em 13 maio de 2026