Ecopontos impulsionam Florianópolis ao reconhecimento como Capital Lixo Zero

Florianópolis não alcançou o posto de única cidade Lixo Zero da América do Sul reconhecida pela ONU (Organização das Nações Unidas) por acaso, nem por iniciativa isolada. O selo internacional é o resultado de uma política pública multifacetada que combina coleta seletiva rigorosa, compostagem orgânica e educação ambiental.

Dentro desse ecossistema, os Ecopontos emergem como peças estratégicas: são a solução para o que o caminhão da coleta comum não leva, evitando o descarte irregular e garantindo que o ciclo da logística reversa se complete.

Os Ecopontos são locais públicos, destinados ao recebimento gratuito de materiais recicláveis e resíduos que não devem ser descartados no lixo comum, como restos de pequenas construções, móveis, colchões, eletrodomésticos e podas de árvores. Servem para facilitar o descarte consciente e evitar o despejo em terrenos baldios, rios e vias públicas.

O impacto é sentido no caixa do município. Nos últimos dois anos, o sistema de descarte voluntário gerou uma economia acumulada de R$ 8.558.915. O montante é fruto do crescimento na adesão: em 2024, foram recebidas 28.812 toneladas, com 15.827 toneladas desviadas do aterro. Em 2025, o volume saltou para 32.988 toneladas, das quais 16.861 toneladas foram redirecionadas.

Para o secretário de Meio Ambiente, Alexandre Waltrick, o Ecoponto é o braço da prefeitura que transforma a intenção do cidadão em resultado prático. Segundo ele, a estrutura é vital para evitar o descarte irregular e garantir que o material volte ao ciclo produtivo com valor de mercado.

Esse reconhecimento rendeu ao prefeito Topázio Neto um convite para visitar São Francisco e Las Vegas, nos Estados Unidos, nesta semana, para compartilhar experiências envolvendo os resíduos.

“É uma construção que a cidade vem fazendo há muito tempo. A questão do lixo é fundamental para que as cidades possam se desenvolver da melhor forma”, destacou.

O acordo por trás dos números

Mais do que eficiência técnica, o modelo de Florianópolis é sustentado por um engajamento coletivo. Para Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, o sucesso da iniciativa revela uma maturidade da sociedade civil.

“O sucesso e participação popular dos Ecopontos em Florianópolis são a comprovação de que esta política pública está ancorada em um acordo social, com alto engajamento da população e do setor empresarial. Este acordo social nos difere e nos tornou referencial global entre as sociedades que rumam para um futuro mais sustentável”, analisa Sabatini.

Esse engajamento é personificado no dia a dia por quem está na ponta do sistema, como Adriana Luzia Fernandes, gari da Comcap há 25 anos. Atuando há oito anos nos Ecopontos, ela mostra que a tecnologia não substitui o olhar humano na triagem.

“O lixo é rico. Ele sustenta milhares de famílias”, diz ela, referindo-se às associações de recicladores que recebem os materiais.

No cotidiano, o isopor vira moldura e a poda vira adubo, em um ciclo em que o morador traz o material e a equipe garante que ele volte para a economia.

“Recebemos desde eletrônicos e pneus até restos de alimentos para compostagem. O morador traz o material e nós garantimos que ele volte para o ciclo produtivo”, explica Adriana.

Planejamento e futuro

Embora a economia acumulada de R$ 8,5 milhões seja histórica, a jornada para a meta “Lixo Zero 2030” exige atenção constante. Simone da Silva Hillesheim, engenheira sanitarista ambiental, reforça que o Ecoponto é um equipamento de apoio à cidadania que depende da sensibilização contínua.

“Nenhum serviço do município vai funcionar se não tiver a educação ambiental caminhando lado a lado”, pontua.

O coordenador de destinação final, Márcio Fabiano de Oliveira Dias, lembra que o sistema enfrenta picos de demanda, especialmente na alta temporada, o que exige um esforço logístico colossal. O desafio, agora, é perenizar o hábito do descarte voluntário como um valor cultural da cidade.

Embora os números sejam positivos, Waltrick e sua equipe querem que os Ecopontos sejam vistos como um benefício para a cidade, não apenas um depósito. O secretário projeta um cenário onde o lixo se torne 100% recurso.

“Meu sonho é que a gente consiga pegar todo o lixo e transformar ele em algum benefício para a cidade, seja energia ou combustível”, afirma Waltrick.

Ecossistema que conquistou a ONU

O protagonismo de Florianópolis atravessou fronteiras e colocou a cidade em um seleto mapa global. Ao ser reconhecida pelas Nações Unidas como a única cidade da América do Sul com o selo de referência em Lixo Zero, o município validou um modelo que vai além da simples existência de pontos de coleta.

O reconhecimento é reflexo de um ecossistema integrado onde os Ecopontos atuam como uma das peças fundamentais, mas não isoladas.

Esse “DNA sustentável” é baseado na combinação de políticas públicas que incluem a coleta seletiva porta a porta — dividida entre secos e orgânicos —, o incentivo à compostagem descentralizada e a integração das associações de catadores no ciclo econômico.

Enquanto os Ecopontos resolvem o gargalo dos materiais volumosos e da logística reversa, com eletrônicos e pneus, outras frentes cuidam para que o resíduo orgânico nem chegue a sair do bairro de origem, sendo transformado em adubo em pátios comunitários.

Para as autoridades internacionais, o mérito de Florianópolis reside na capacidade de transformar metas ambientais ambiciosas em números reais.

Esse conjunto de ações prova que o título de “Capital Lixo Zero” não é apenas uma honraria, mas a consequência de uma estrutura que trata o resíduo como recurso, unindo eficiência operacional à responsabilidade social e climática.

Manual do usuário

O que levar e como separar

O que pode — destino: valorização

Recicláveis secos: plásticos, papéis, metais e isopor, até 500 litros.

Vidros: garrafas, potes e cristais, com quantidade ilimitada para embalagens.

Verdes e madeiras: podas, galhos e restos de madeira sem pintura, até 1 m³.

Entulho: restos de construção civil, como tijolos e telhas, até 1 m³.

Orgânicos compostáveis: restos de alimentos e guardanapos usados, até 30 litros.

Logística reversa e reuso — destino: indústria/social

Eletrônicos e eletrodomésticos: de celulares a geladeiras, com limite de 2 a 3 unidades.

Especiais: pilhas, baterias, lâmpadas e pneus, com limites de 4 a 10 unidades.

Óleo de cozinha: entregue em garrafas PET, até 5 litros.

Cápsulas de café e material de escrita: canetas, lápis e cápsulas usadas.

Solidariedade: livros, roupas e calçados em bom estado para doação.


Onde estão os Ecopontos

Ingleses: Rua Via Local Insular, Celesc.

Rio Vermelho: Rua Cândido Pereira dos Anjos.

Costeira: Av. Jorge Lacerda, 1374.

Itacorubi: Rod. Admar Gonzaga, 72.

Capoeiras: Rua Prof. Egídio Ferreira.

Monte Cristo: Rua Prof. Joaquim Nabuco, 2948.

Morro das Pedras: Rua Francisco Vieira, 198.

Coloninha: Rua Araci Vaz Callado, 2000.

Canasvieiras: Rua Des. Maurílio Coimbra.

(ND, 22/04/2026)


Publicado em 22 abril de 2026

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Meio Ambiente, Radar
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