Meio ambiente e dívida ecológica: ainda repetimos Estocolmo 72
Artigo de Emerilson Gil Emerim
Biólogo e coordenador de Preservação Ambiental do Floripa Sustentável
Durante 50 anos, desde a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo (1972), o Brasil mantém um discurso coerente — mas pouco transformado. Sob a liderança do embaixador Miguel Ozório de Almeida, o país afirmou que as nações em desenvolvimento têm o direito soberano de explorar seus recursos naturais e de definir suas próprias políticas ambientais, sem imposições e pressões externas.
A responsabilidade pela degradação ambiental global, argumentava-se, cabia majoritariamente aos países industrializados, que deveriam assumir a responsabilidade e compensar financeiramente aqueles que ainda preservam.
Essa posição tornou-se marca da diplomacia brasileira e se manteve viva ao longo das décadas. Em todas as grandes conferências ambientais, da Rio-92 à Rio+20, passando pelas sucessivas COPs, o país reafirma que conservar suas florestas e ecossistemas é prestar um serviço ambiental ao planeta.
Termos contemporâneos como “economia de baixo carbono”, “justiça climática” e “financiamento verde” apenas atualizaram o vocabulário do mesmo argumento histórico: a proteção ambiental deve ser reconhecida e remunerada pelas nações que mais contribuíram para o desequilíbrio climático global.
Enquanto o discurso se repete, o planeta continua aquecendo, os compromissos financeiros assumidos não se concretizam e o Brasil segue esperando compensações que raramente chegam. A urgência climática impõe uma nova postura. Se a conservação é prioridade, ela precisa ser incorporada ao planejamento econômico, às políticas públicas e às decisões estratégicas do país.
O Brasil tem condições reais de ser protagonista na economia verde global. Reúne biodiversidade, potencial tecnológico e capital humano. Para isso, é necessário romper o ciclo iniciado em Estocolmo e provar, na prática, que desenvolvimento e conservação são inseparáveis. Repetir Estocolmo é permanecer à deriva. Superá-la é assumir, com coragem e visão, o papel que o Brasil pode (e precisa) desempenhar na construção de um futuro sustentável.
(ND, 19/11/2025)
Publicado em 19 novembro de 2025