Capital vai sediar primeiro Festival Internacional de Renda de Bilro

“Minha folha de malva, meu manjericão, dá três pancadinhas no meu coração…” Foi com os versos tradicionais da cantiga “Ratoeira” — sempre presente nas rodas de renda — que Florianópolis anunciou o primeiro Festival Internacional de Renda de Bilro, programado para os dias 2, 3, 4 e 5 de dezembro.

Ao longo dos quatro dias, mais de 200 rendeiras de Santa Catarina vão se unir a 13 representantes de Estados como Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais e Rio Grande do Norte. Ao lado delas, ainda participam oito pessoas vindas de países como Espanha, Portugal e Bélgica. O evento vai contar com desfile de moda com roupas de renda, feira de artesanato, oficinas, palestras e roda de conversa que valorizam a cultura e a troca entre rendeiras de diferentes nacionalidades e níveis de experiência.

“Esse evento foi inspirado em outros encontros que já existem no mundo, mas que nunca tinham sido realizados no Brasil. Como Florianópolis é um dos polos mais importantes do Estado de Santa Catarina e do Brasil [para a renda de bilro], surgiu a ideia de fazer esse encontro aqui”, conta a coordenadora executiva da FCFFC (Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes), Roseli Pereira.

O anúncio foi feito ontem, durante as comemorações do Dia Municipal da Rendeira e do Rendeiro de Florianópolis, quando também foi aberta a exposição “Renda de Bilro – Cultura Viva de Florianópolis”, que fica disponível para visitação até 11 de dezembro na galeria de arte do Mercado Público da Capital.

A exposição reúne peças do acervo de Doralécio Soares e obras de arte inspiradas na tradição, aproximando o patrimônio cultural da produção artística contemporânea e evidenciando como a renda de bilro ainda permanece presente na cidade. Folclorista, jornalista, escritor e técnico em artes gráficas, Doralécio Soares dedicou a vida à pesquisa e valorização da cultura popular e do artesanato catarinense, sendo creditado como um importante conservador da tradição da renda de bilro.

HISTÓRIA VIVA

Originado na Bélgica do século 15, o bilro chegou a Florianópolis junto dos açorianos que colonizaram o Litoral catarinense e se tornou uma das principais marcas deixadas na cultura da região. O Dia Municipal da Rendeira e do Rendeiro, inclusive, é comemorado no dia de saída dos primeiros colonizadores açorianos do arquipélago português.

“Sem dúvida nenhuma, é o patrimônio mais importante que a gente tem. A gente tem nela a referência do manezinho”, avalia o secretário de Cultura, Esporte e Lazer de Florianópolis, Roberto Katumi.

Neto de japoneses, Katumi tem mãe rendeira e luta pela preservação da renda na Capital. “Estamos vivendo um momento em que as rendeiras estão se reproduzindo bastante, e a secretaria está apoiando, abrindo polos de renda para ensinar a juventude e essa cultura durar muitos anos.”

Ações de valorização atraem novas rendeiras

Essas ações entraram na vida da gaúcha Carla Adriana Mirabello Ferreira no ano passado. Carla mora em Florianópolis há 25 anos e começou a fazer renda a convite de uma amiga. De lá para cá, participou de um curso ministrado pelo Sebrae em parceria com a FCFFC, o que teve um impacto positivo na vida dela. “Quando estou fazendo a renda, para mim é bem terapêutico. Eu fico tranquila, esqueço do mundo, me concentro, fico em paz”, afirma.

Carla é uma das novas rendeiras que se somam às quase 500 que vivem em Florianópolis, número que tem crescido com as ações de valorização histórica da prefeitura. “Nós temos pessoas de várias faixas etárias interessadas, e temos uma presença forte das mestras rendeiras. Hoje as escolas municipais estão muito sensibilizadas em repassar esse saber tradicional através das mestras”, diz Roseli.

Produtos locais terão selo de origem

Para valorizar ainda mais a renda de bilro produzida em Florianópolis, a prefeitura vai lançar um concurso para criar um selo de identificação que mostre para o mundo a qualidade dos produtos feitos pelas artesãs da Capital. O concurso deve acontecer durante o festival no início de dezembro.

“Queremos que aquela renda feita de forma tradicional, manual, em Florianópolis, tenha um selo com o nome da artista, e seja numerada para que essa peça seja única. A gente quer, na realidade, agregar valor à renda, ou seja, a renda que hoje a gente vende por R$ 250, eu quero vender por R$ 400, quero vender por R$ 500, quero colocar uma roupa bonita e ela ser valorizada”, disse o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto.

(ND, 22/10/2026)


Publicado em 22 outubro de 2026

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