Sem doação regular, não há tratamento garantido

Foto: Fecebook
Artigo de Irmã Neusa Lucio Luiz
Presidente da Federação de Hospitais e Entidades Filantrópicas de Santa Catarina
O sangue não pode ser produzido artificialmente e não existe substituto para ele, o que torna a doação voluntária o único caminho para garantir que transfusões estejam disponíveis quando os pacientes precisam. Essa realidade está presente nos hospitais todos os dias, independentemente de campanhas ou datas no calendário. As mobilizações periódicas cumprem um papel importante, desde que não esgotem nelas mesmas o compromisso que a doação exige ao longo de todo o ano.
Nos hospitais que atendem majoritariamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a demanda por transfusões é contínua. Pacientes em tratamento oncológico precisam delas com frequência, já que a quimioterapia e a radioterapia comprometem a produção de células sanguíneas. Traumas, hemorragias, partos de risco, transplantes e doenças hematológicas também dependem da disponibilidade regular de sangue para que o atendimento seja possível.
Uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas, pois o sangue coletado é separado em componentes como hemácias, plaquetas e plasma. Ainda assim, os hemocentros convivem com oscilações frequentes nos estoques. O inverno concentra parte do problema, com o aumento das doenças respiratórias e a redução do número de doadores, justamente quando a demanda hospitalar segue elevada. Mas a fragilidade dos estoques não é sazonal. Ela reflete a falta de uma cultura consolidada de doação regular.
Transformar esse cenário exige mais do que mobilização pontual. Um sistema de saúde forte depende de hospitais estruturados, equipes qualificadas e do engajamento contínuo da sociedade, e esses elementos são interdependentes. Nenhum deles sustenta o cuidado de forma isolada, e a doação de sangue é parte constitutiva dessa estrutura, não um complemento eventual.
Avançar na cultura da doação exige investimento permanente em educação em saúde, comunicação acessível sobre os critérios e o processo de doação, e políticas que aproximem a população dos hemocentros ao longo de todo o ano. Esse é o compromisso que deve orientar tanto as instituições de saúde quanto o poder público.
(ND, 11/07/2026)
Publicado em 13 julho de 2026