A Saúde na Era da Inteligência Artificial

Artigo de Dr Luiz Alberto Silveira
Médico, membro da Academia de Medicina e associado da FloripAmanhã

Durante séculos, o cuidado dos enfermos esteve sob a responsabilidade das Santas Casas de Misericórdia. No início do século XX, as elites tinham acesso à medicina privada; os mais pobres dependiam da caridade e a doença era frequentemente aceita como destino inevitável.

A partir de 1970, profissionais, gestores públicos e movimentos sociais passaram a defender uma concepção ampliada de saúde, entendida não apenas como ausência de doença, mas como resultado das condições de vida da população. Essa visão alcançou seu marco histórico na Constituição Federal de 1988: “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Nascia o Sistema Único de Saúde (SUS), uma das maiores políticas públicas de inclusão social do mundo.

Hoje, porém, uma nova transformação está em curso. O século XXI trouxe a revolução digital, a medicina de precisão e, sobretudo, a inteligência artificial. Pela primeira vez na história, algoritmos são capazes de analisar milhões de dados clínicos e apoiar decisões terapêuticas com velocidade sem precedentes, representando uma oportunidade extraordinária para aumentar a eficiência dos serviços de saúde.

Entretanto, toda revolução tecnológica traz consigo novos desafios éticos, e surge a pergunta: como preservar o vínculo humano em uma era mediada por algoritmos? A eficiência digital não pode se sobrepor à dignidade humana. Talvez o maior desafio das próximas décadas seja garantir que a inovação tecnológica continue subordinada aos valores que deram origem ao SUS — universalidade, equidade e solidariedade.

Nesse contexto, cidades como Florianópolis ocupam posição estratégica. Reconhecida pela combinação entre qualidade de vida, produção científica, ecossistema de inovação e consciência ambiental, a capital catarinense reúne condições para se tornar um laboratório vivo da saúde do futuro: uma saúde capaz de integrar inteligência artificial, ciência de dados e sustentabilidade sem abrir mão da dimensão humana do cuidado.

Da caridade à cidadania. Da medicina assistencial à inteligência artificial. Essa é a grande travessia da saúde brasileira.

O futuro da saúde não será definido apenas pelas máquinas que aprendem, mas pela nossa capacidade de fazer com que elas sirvam aos valores humanos que construíram a própria ideia de civilização. Inovar será indispensável. Humanizar continuará sendo insubstituível.


Publicado em 12 junho de 2026

Categorias:
Artigos, Radar, Saúde
mm
Radar da Cidade

A FloripAmanhã realiza um monitoramento de mídia para republicação de notícias relacionadas com o foco da Associação. O chamado "Radar da Cidade" veicula notícias selecionadas para promover o debate e o conhecimento sobre temas como planejamento urbano, meio ambiente, economia criativa, entre outros assuntos relevantes de Florianópolis. As notícias veiculadas nesta seção não necessariamente refletem a posição da FloripAmanhã e são de responsabilidade dos veículos e assessorias de imprensa citados como fonte.