Florianópolis e o compromisso de ser uma cidade Lixo Zero

Artigo de Rodrigo Sabatini
Presidente do Instituto Lixo Zero Brasil

No dia 30 de março, o mundo celebrou o Dia Internacional Lixo Zero, instituído pela ONU como um chamado à transformação da forma como produzimos, consumimos e lidamos com nossos resíduos. Mais do que uma data simbólica, trata-se de um convite à mudança de paradigma.

Neste ano, Florianópolis ganha destaque global ao ser anunciada como uma das 20 cidades Lixo Zero do mundo, em iniciativa vinculada à ONU-Habitat. O reconhecimento projeta a cidade internacionalmente – mas, acima de tudo, amplia sua responsabilidade.

Ser uma cidade Lixo Zero não é um título. É o reconhecimento de um caminho que já está em curso.

A avaliação internacional destaca Florianópolis por suas altas taxas de desvio de resíduos, sustentadas por três pilares fundamentais: a segregação obrigatória, a educação ambiental e a forte participação dos catadores de materiais recicláveis. Esses elementos colocam a cidade entre as experiências mais consistentes em construção no mundo.

Ao longo dos últimos anos, Florianópolis estruturou uma coleta seletiva com ampla cobertura, investiu na criação e expansão de centrais de valorização de resíduos e fortaleceu iniciativas comunitárias e institucionais voltadas à redução e ao reaproveitamento de materiais. Trata-se de um trabalho contínuo, que envolve Poder Público, cooperativas, organizações e a própria população.

Esse avanço é real, e precisa ser reconhecido. Mas também é insuficiente diante do desafio.

Ainda há resíduos recicláveis sendo descartados de forma inadequada, materiais contaminados que perdem valor e uma dependência significativa de aterros sanitários. O reconhecimento internacional não encerra esse processo. Ele eleva o nível de exigência.

O Lixo Zero propõe uma ruptura com a lógica histórica de abandonar, enterrar ou queimar resíduos. Trata-se de reduzir a geração, manter materiais em circulação e eliminar o desperdício como destino inevitável.

Isso exige participação coletiva. Não existe cidade Lixo Zero sem cidadania ativa. Cada escolha cotidiana – o que consumimos, como utilizamos e como descartamos – influencia diretamente o sistema. Ao mesmo tempo, cabe ao Poder Público seguir avançando em infraestrutura, educação e políticas públicas consistentes.

Mas há um ponto central: a dignidade. Os catadores de materiais recicláveis são protagonistas dessa transformação. O reconhecimento internacional de Florianópolis também é, em grande parte, resultado do trabalho desses profissionais, que historicamente sustentam na prática aquilo que hoje se consolida como estratégia. Florianópolis tem agora a oportunidade de se afirmar como referência internacional – não apenas pelo que já fez, mas pelo que está disposta a fazer a partir daqui.

O reconhecimento da ONU é um marco. Mas o verdadeiro compromisso começa agora. Ser uma cidade Lixo Zero não é sobre o que se anuncia. É sobre o que se constrói, todos os dias.

(ND, 31/03/2026)


Publicado em 31 março de 2026

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Artigos, Meio Ambiente, Radar
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