Verão em SC segue o “mesmo roteiro” há 12 anos e expõe gargalos estruturais

Da Coluna de Renato Igor (NSC, 02/01/2026)

Santa Catarina avançou, nos últimos anos, na diversificação de seus produtos turísticos. Trata-se, em grande parte, de um esforço do setor privado, como se viu de forma mais acentuada em Urubici, na Serra, em Pomerode, no Vale do Itajaí, e em Balneário Camboriú, no litoral. Em Florianópolis, a principal novidade da última década foi o novo aeroporto internacional, sob concessão da Zurich Airport, além da reforma da Ponte Hercílio Luz.

Também é positivo o movimento de articulação entre o poder público e a iniciativa privada na busca por novos mercados internacionais, com forte investimento em promoção e na conquista de novos voos. O problema de Santa Catarina não é o que oferecer ao turista. O grande entrave está em como chegar e permanecer no Estado: estradas saturadas e serviços essenciais ainda sem solução definitiva.

O professor Tiago Savi Mondo, do Campus Florianópolis Continente do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e coordenador da Central de Inteligência Turística de Florianópolis, lançada pelo próprio instituto, resume o cenário de forma direta: “Há 12 verões, temos o mesmo roteiro”.

Segundo o especialista em turismo:

“Em janeiro de 2014, escrevi no Diário Catarinense um artigo intitulado Que turismo é este?. Quase doze anos depois, iniciamos mais uma temporada de verão convivendo com problemas que se repetem: falta de energia em algumas praias, escassez de água em outras, sobrecarga dos sistemas de esgoto, trânsito caótico, longas filas, falhas na coleta de lixo e balneabilidade comprometida.

As chuvas intensas dos últimos dias agravaram ainda mais o cenário e, embora sejam fenômenos naturais incontroláveis, seus impactos poderiam — e deveriam — ser minimamente mitigados com planejamento, inteligência e gestão adequada.

A crítica aqui não se dirige aos gestores do turismo em si, que muitas vezes operam com margens de ação reduzidas, estruturas engessadas e decisões que extrapolam suas competências. O problema é mais amplo e estrutural. Trata-se de uma gestão pública que ainda insiste em tratar o turismo como um setor isolado, quando, na prática, ele atravessa áreas como mobilidade, saneamento, energia, meio ambiente, saúde e ordenamento urbano.

É inegável que houve avanços, sobretudo no discurso e em iniciativas voltadas à promoção, à diversificação da oferta e ao estímulo ao turismo ao longo de todo o ano. No entanto, os gargalos da alta temporada permanecem praticamente os mesmos. A lógica segue sendo reativa: primeiro o colapso, depois a tentativa de correção. Planeja-se pouco, mede-se pouco e decide-se, muitas vezes, sem o uso sistemático de dados, indicadores e análises prospectivas.

A responsabilidade de liderar a ruptura desse ciclo é da gestão pública. Cabe ao Estado conduzir processos de planejamento integrado, coordenar políticas intersetoriais e estruturar decisões baseadas em evidências. As universidades podem — e devem — atuar como parceiras estratégicas, oferecendo conhecimento técnico, métodos, ferramentas analíticas e avaliação contínua de políticas e projetos.

O conhecimento existe. As ferramentas existem. As experiências também. O que ainda falta é transformar tudo isso em ação pública consistente, contínua e institucionalizada. A reflexão que se impõe, portanto, não é nova, mas segue atual: até quando a gestão pública continuará enfrentando os efeitos previsíveis da temporada sem incorporar, de forma sistemática, dados, inteligência e o apoio qualificado das universidades na tomada de decisão?”


Publicado em 05 janeiro de 2026

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