Reencontro do Centro com o mar
Artigo de Valério Gomes Neto
Empresário
Florianópolis nasceu de frente para o mar. Uma cidade–ilha moldada pela geografia e pela cultura marítima que, por séculos, foi o seu traço mais marcante. Do surfe nas praias do Leste à vela e do remo no Centro, o mar sempre foi fonte de identidade, esporte e inspiração, a exemplo de tantos campeões que se formaram nos clubes náuticos Francisco Martinelli e Riachuelo e no Clube de Regatas Aldo Luz. No entanto, com o avanço da urbanização e dos aterros da baía Sul e da Beira-Mar Norte, a cidade – que já teve porto – perdeu o contato físico e emocional com o oceano. Assim, as obras que moldaram o centro da cidade melhoraram a infraestrutura e a mobilidade, mas também criaram uma barreira entre a população e o mar. O que antes era uma borda viva e fluida transformou-se em um limite rígido de concreto e asfalto.
No entanto, a distância aparentemente intransponível pode e deve ser revertida. Cidades como Nova York vêm demonstrando que é possível reconquistar o encontro com o mar. Afinal, Manhattan, que também é uma ilha, tem recuperado as suas margens (edgewaters) com parques lineares ao longo do rio Hudson e do East River – são espaços públicos vibrantes, com ciclovias, playgrounds e calçadões que reaproximam a vida urbana da água.
Cidade marinha, Florianópolis começa a trilhar esse mesmo caminho. A prefeitura, em parceria com o setor privado, desenvolve projetos que apontam para uma nova relação com o mar: estão sendo planejados o Parque e Marina Beira-Mar, o Parque do Remo e o novo Centro de Convenções. Também os sonhos de arquitetos e urbanistas locais vislumbram um grande parque linear ligando ao Clube Veleiros da Ilha, na Prainha, às cabeceiras das três pontes, estendendo-se até a Ponta do Coral e o CIC (Centro Integrado de Cultura), na Agronômica.
Com a cooperação entre o poder público, a iniciativa privada e instituições como a ACIF e CDL, esse reencontro é mais do que uma obra urbana – é um gesto simbólico de reconciliação da cidade com a sua natureza. Reaproximar-se do mar é recuperar nossa própria essência, do desenho das cidades ao prazer de viver à beira d’água. E esse sonho urbano torna-se um projeto possível – e urgente.
(ND, 06/11/2025)
Publicado em 06 novembro de 2025