Rio que faz fronteira entre Florianópolis e São José carrega fardo da poluição e do abandono

O Rio Araújo, com pouco mais de cinco quilômetros, marca a fronteira invisível que separa Florianópolis e São José, na Grande Florianópolis. O curso d’água, que carrega histórias e memórias de tempos em que era próprio para banho, deixou para trás o simbolismo e hoje carrega o fardo da poluição e do abandono.

Entre as margens do Araújo, moradores e comerciantes convivem diariamente com os contrastes do limite: de um lado, o bairro Capoeiras e, do outro, Campinas. Impostos diferentes, serviços públicos e realidades que se encontram no mesmo espaço.

O Araújo, que nasce no bairro Bela Vista e deságua na Beira-Mar de São José, no entanto, chama atenção por outro motivo: ao longo do caminho, recebe entulho, óleo, esgoto clandestino e resíduos diversos.

O descarte inadequado não só afeta a fauna local como ameaça a saúde humana. Óleo e graxas liberam substâncias cancerígenas, enquanto o esgoto aumenta os riscos de doenças transmitidas pela água.

Do lazer à degradação

Com cerca de 5,3 mil metros de extensão, o rio atravessa áreas comerciais e deságua na Avenida Beira-Mar de São José.

Nos anos 50 e 60, era comum ver famílias e crianças se banhando nas águas. Hoje, a paisagem mudou. O empresário Isaías Sens, que mantém há quase meio século uma clínica veterinária e pet shop ao lado do Araújo, relembra os tempos em que o local era um espaço de convivência:

— Nos anos 70, quando eu vim pra cá, o que se via aqui era verdinho. Ah, mas nunca me esqueço, a criançada brincava aqui, tomava um banho.

Ele também lembra que era comum pescar e andar de barco na região. A cena, no entanto, ficou no passado. Com o avanço do aterro e da poluição, peixes e aves desapareceram, transformando o rio em um desafio ambiental.

Ainda assim, a natureza resiste. De acordo com a Prefeitura de São José, espécies como a ave tapicuru passaram a usar as árvores da região como abrigo, após perderem habitat em outras áreas do Estado.

Impacto nos negócios

O gerente do Tri Hotel, Iuri Kirinus, relata as dificuldades de manter um empreendimento às margens de um rio degradado. Oficialmente localizado em Florianópolis, o hotel fica no limite entre as duas cidades:

— Para nós atrapalha bastante, principalmente pela questão do rio. Nenhum órgão se responsabiliza por ajeitar essa parte. Até o proprietário do prédio, há vários anos, se ofereceu para transformar o espaço em uma praça, mas não foi feito.

Segundo ele, além de móveis e entulhos, já houve episódios ainda piores. — Teve uma vez que apareceu até um corpo aqui, ele parou na frente do hotel — contou Iuri.

A poluição, diz Kirinus, prejudica até a permanência de clientes:

— A gente já está acostumado com o cheiro. Mas tem muito hóspede que chega e vai embora. Chega, passou no estacionamento, abriu a porta… não tem como. Um odor muito forte, não tem como ficar. Não é o hotel que tem cheiro de esgoto.

Para ele, a revitalização do espaço poderia transformar a realidade da região.

— Ia valorizar muito mais. Mas não é só despoluir, tem que conscientizar as pessoas de não jogar lixo. Acho que revitalizar essa área, colocar alguma coisa, proteger, botar uma tubulação, isso aqui ia ser muito melhor para nós — reitera.

O olhar dos moradores

Quem vive próximo ao Araújo também sente os efeitos. Uma moradora que preferiu não se identificar contou que, mesmo a duas quadras do local, o cheiro é intenso.

— É horrível. O cheiro é horrível. Eu moro há duas quadras daqui e dá para sentir de lá — relatou.

Ela acredita que transformar o espaço em área de lazer seria uma solução.

— O povo larga muito a sujeira aqui. Se fizessem uma praça e podassem um pouco as árvores, já ajudava bastante — sugere a moradora.

Esta não é uma opinião particular e isolada. A reportagem conversou com outros moradores e frequentadores da região, e o sentimento é unânime.

O espaço deixou de ser um marco, fator curioso para quem mora na região, e agora é sinônimo de revolta e preocupação.

Ações de recuperação do Rio Araújo

A responsabilidade pelo curso d’água, segundo a Prefeitura de São José, é da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento), que desde 2022 desenvolve o programa Trato pelo Araújo.

A iniciativa busca orientar moradores sobre o correto direcionamento de efluentes domésticos, identificar ligações clandestinas e melhorar a destinação de resíduos.

— As principais irregularidades envolvem o despejo de água da chuva (pluvial) na rede de esgoto e a ausência ou instalação incorreta da caixa de gordura. Esses problemas podem causar vazamentos e sobrecarga do sistema, especialmente quando calhas e ralos pluviais são ligados à rede coletora, ou a gordura descartada no preparo de alimentos chega à rede de coleta de esgoto sem passar por tratamento, endurecendo e entupindo as tubulações — explica o chefe de agência da Casan em São José, Luciano Irineo Oliveira.

Desde o início, mais de 3 mil imóveis foram regularizados após vistorias, mas cerca de 30% ainda apresentam problemas que comprometem o funcionamento do sistema de esgoto.

Além de inspeções, as equipes emitem certificados para residências que já se encontram adequadas e distribuem materiais educativos sobre descarte correto de resíduos.

Por parte da Prefeitura de São José, o trabalho é de desassoreamento do rio, limpando as galerias.

(CBN Total, 28/09/2025)


Publicado em 29 setembro de 2025

Categorias:
Meio Ambiente, Radar, Saneamento
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