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UFSC desenvolve tecnologia para recuperação de florestas degradadas

Frear o desmatamento de florestas tropicais e promover a recuperação de áreas degradadas são ações que ganham atenção com os impactos do aquecimento global. O desafio não é recente, mas o momento de vedete dos créditos de carbono e da restauração de florestas ilumina um trabalho que vem sendo realizado na UFSC há cerca de 10 anos e que coloca a Universidade Federal de Santa Catarina entre os principais grupos do país que produzem conhecimento nessa área. Os estudos deram suporte à concepção de uma tecnologia para restauração de florestas degradadas.

A metodologia foi desenvolvida a partir das pesquisas do Laboratório de Ecologia Florestal, ligado ao Departamento de Botânica do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da UFSC. Já foram desenvolvidas quatro dissertações de mestrado e uma tese de doutorado sobre o assunto, produzidos materiais didáticos, notas científicas e artigos para apresentações e publicações em eventos e periódicos nacionais e internacionais. A correlação com créditos de carbono é mais um desafio para o grupo que já pode mostrar como fazer e tem até estimativas sobre qual o preço de recuperar a floresta atlântica.

Avaliações do grupo indicam que enquanto sistemas de recuperação convencional têm custo de R$ 5.500,00/ hectare, a técnica desenvolvida na UFSC pode ficar em torno de R$ 3.600,00/hectare. O paralelo entre sistemas convencionais e a técnica de nucleação, proposta pela equipe, mostra também diferenças consideráveis em termos de compromisso. Enquanto a recuperação convencional prioriza a revegetação, a aparência e o cumprimento da legislação, a nucleação visa a conservação e as futuras gerações.

Mas, preocupada em recuperar biodiversidade, a equipe estima custos pois sabe que precisa mostrar ao setor produtivo que há como compatibilizar lucro com as necessidades de conservação ambiental – no sistema capitalista, uma estratégia fundamental para ações de proteção das florestas.

Imitando a natureza

Nucleação, sucessão, conectividade da paisagem, permeabilidade, transposição de solo e chuva de sementes são alguns dos termos presentes na produção bibliográfica assinada pelos integrantes do Laboratório de Ecologia Florestal e que compõem a nova tecnologia de recuperação de florestas. A terminologia técnica mostra o suporte científico alcançado pelo grupo para criar condições de que a própria natureza retome seus processos. A escolha do título dos cursos ministrados pela equipe (Restauração de áreas degradadas – Imitando a Natureza) sintetiza os princípios adotados.

De acordo com o coordenador do Laboratório de Ecologia Florestal, o professor Ademir Reis, o princípio básico é a nucleação, técnica que reúne uma série de estratégias para favorecer o retorno de plantas e animais às áreas degradadas e recuperar a ligação entre fragmentos de florestas e áreas remanescentes. “Restaurar é gerar conectividade na paisagem, permitindo que fragmentos degradados voltem a ter contato com áreas não degradadas”, resume o professor. Segundo ele, a nucleação representa uma alternativa de restauração ambiental que, apesar de aparentemente mais lenta, é baseada em fundamentos que primam pela recuperação das complexas teias da vida.

“Para que a recuperação tenha sucesso ela tem que ser gradual”, defende o professor, lembrando que a proposta não é apenas recuperar a vegetação, mas a ação de produtores (plantas), consumidores (animais) e decompositores (microorganismos) que compõem o ecossistema da floresta. Para o grupo, o desafio em um processo de recuperação florestal é criar condições para que sejam retomados níveis intensos de predação, polinização, dispersão, decomposição, nascimentos e mortes.

Por isso mesmo, defende o grupo, não basta encher a área a ser recuperada de mudas de árvores. Aliás, a pressa é inimiga da complexidade de relações entre plantas, animais e microorganismos que a equipe se propõe a reconstituir.

Chuva de sementes

Para reconstituir a biodiversidade da área degradada, uma série de técnicas são associadas: poleiros artificiais, refúgios para a fauna, transposição de solo e chuva de sementes. Os poleiros artificiais são estruturas que imitam galhos secos de plantas e atuam como estrutura de repouso, assim atraem pássaros, que reencontram na área degrada local de repouso e caça.

São também implantados poleiros vivos, que imitam árvores e atraem outros animais. É o caso dos morcegos, que procuram locais de abrigo para completar a alimentação dos frutos colhidos em árvores distantes. Ao mesmo tempo, essa fauna deixa sementes no local que precisa ter a vegetação restaurada. Os poleiros fazem o papel de trampolins ecológicos, formando corredores virtuais entre os fragmentos visinhos da área a ser restaurada.

A equipe cria também refúgios, mantendo montes de galhos e pedras, que se tornam locais para alimentação e reprodução da fauna, facilitando a chegada de sementes. Os refúgios favorecem a formação de matéria orgânica, gerada pela decomposição da galharia, que enriquece o solo e cria condições adequadas à germinação e crescimento de sementes de espécies mais adaptadas aos ambientes sombreados e úmidos.

Outra estratégia é a transposição de solo. Ela permite que parcelas do solo de áreas visinhas sejam levadas para a região degradada, trazendo microorganismos e sementes de volta. Além disso, estruturas são introduzidas em áreas florestais próximas, para coletar sementes que são distribuídas na área que está sendo recuperada. Segundo o grupo, coletar a chuva de sementes de fragmentos próximos, com periodicidade mensal, durante no mínimo um ano, é uma forma de buscar a diversidade das espécies da região. A tradicional plantação de mudas também é adotada, mas não é uma prioridade para a equipe.

De acordo com o professor, em conjunto, todas as tecnologias não devem ocupar mais de 5% da área a ser restaurada (daí a denominação nucleação), para que o restante seja propício às “eventualidades da natureza”. Aos poucos os núcleos foram aglomerados de vegetação densa, que se destacam na paisagem como os primeiros locais de abrigos para a fauna e produção das primeiras sementes na área.

“Todas estas tecnologias são apenas gatilhos para que aos processos naturais sejam recuperados”, explica o professor, ressaltando que usar apenas a plantação de mudas (o que geralmente é feito) impede a expressão das dinâmicas da natureza, fundamentais para recuperação da vegetação em áreas tropicais, onde a principal característica é a biodiversidade (grande número de espécies animais e vegetais).

Aprimoramento

A metodologia desenvolvida na UFSC é aceita por órgãos ambientais como Fatma e IBAMA, que fiscalizam a recuperação de áreas degradadas em Santa Catarina. Já foi apresentada em 16 cursos de capacitação – um deles, este ano, para promotores de justiça e procuradores do Ministério Público de Santa Catarina que atuam na área ambiental.

Além disso, desde 2004, experimentações e aprimoramentos do processo estão sendo realizados em parceria com a Modo Battistella Reflorestamento S/A (Mobasa), que compõe o conglomerado Battistella, formado por empresas que atuam em diferentes ramos, entre eles, a industrialização e comercialização de madeiras e produtos derivados.

A metodologia está recuperando áreas ciliares degradadas no norte do Estado de Santa Catarina, onde a Battistella possui cerca de 40 mil hectares de terras. Dezoito mil hectares são florestas cultivas com o pinus, usado nos produtos comercializados pela empresa. O restante, grande parte a beira de rios, está sendo recuperado – uma exigência da legislação e uma estratégia de mercado para a Battistella, que trabalha com o mercado internacional, exigente de certificações. Como conta com um sistema de manejo de suas reservas florestais plantadas e naturais, a empresa insere seu produto no mercado internacional com certificação ambiental.

“A metodologia atende a questão empresarial e ao mesmo tempo resulta em grandes áreas preservadas”, resume o coordenador, lembrando que a proposta toca no grande desafio atual: promover mudanças nos sistemas de valores, compatibilizando as exigências econômicas com a sustentabilidade ecológica.

(Arley Reis, Agecom, 22/08/2007)

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1 Comentário

  1. Nereide Vieira Claro disse:

    Gostaria de ver mais publicações de artigos sobre chuva de sementes no Bioma Cerrado. Grata…

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