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Ainda são necessários R$ 143 milhões para salvar a ponte Hercílio Luz, em Florianópolis




Estado não tem dinheiro para terminar a restauração de um ícone do patrimônio histórico catarinense, cartão postal de Florianópolis

Manter de pé a ponte Hercílio Luz, o maior patrimônio de Santa Catarina, tombado nas esferas municipal, estadual e federal, tem um preço alto. Ainda são necessários R$ 143 milhões, de um total estimado em R$ 170 milhões, para concluir a segunda etapa das obras de restauração. Em 2005, o Estado assumiu a responsabilidade de recuperar a ponte, mas, passados seis anos, percebeu que sozinho não conseguirá bancar essa conta. Agora, quer cultivar a ideia de que a Hercílio Luz é um patrimônio da humanidade, por isso, todos terão que ajudar para não tornar o restauro uma verdadeira obra sem fim.

Tecnicamente, a ponte fica pronta em dois anos. No entanto, sem garantia do dinheiro, o consórcio Floripa Monumento, vencedor da licitação do Deinfra (Departamento Estadual de Infraestrutura), não avança nos trabalhos de recuperação do vão central, a última e mais complexa parte. Além da falta de recurso, a deterioração da ponte preocupa. Folclórica nas rodas de conversa da Capital, a frase “a ponte pode cair” já deixou de ser brincadeira. Relatório do consórcio, obtido com exclusividade pelo Notícias do Dia, demonstra claramente a imprevisível possibilidade da Hercílio Luz desabar.

“A ponte tem uma barra de olhal rompida. Qualquer trinca que eventualmente vier a ocorrer nas três barras de olhais contíguas poderá torcer a torre principal e desequilibrar a ponte, levando-a à ruptura. Os atuais pendurais e suas ligações encontram-se bastante deteriorados e a sua alma de cânhamo, cheia de água. Movimentos extraordinários da ponte poderão levar à ruptura de um ou mais pendurais e, a partir daí, promover uma reação em cadeia, desequilibrando a ponte e levando-a ao colapso”, diz o documento “Riscos de Colapso da Ponte Hercílio Luz, Aspectos Técnicos”, de fevereiro deste ano.

“A ponte sempre teve problemas, desde 1982, quando foi interditada. O relatório só colocou no papel aquilo que já sabíamos. A ponte pode sim cair, como pode acontecer com qualquer ponte no mundo, mas nós estamos fazendo tudo o que é possível para evitar que isso aconteça. É nossa prioridade”, explica o presidente do Deinfra, o engenheiro Paulo Meller.

Investimento

R$ 154 milhões era o valor inicialmente previsto na licitação

R$ 9 milhões somam os aditivos feitos ao contrato

R$ 163 milhões é o orçamento até agora

R$ 170 milhões é a estimativa de orçamento final em função dos demais aditivos

R$ 27 milhões já foram pagos

R$ 143 milhões é o valor que falta para concluir a obra

R$ 60 milhões é o necessário para construir a estrutura de sustentação provisória e deixar a ponte em segurança

R$ 60 milhões é a previsão orçamentária do Estado para investir na obra em 2011, mas recursos não estão garantidos

FONTE: DEINFRA, FLORIPA MONUMENTO, SECRETARIA DE PLANEJAMENTO

Um problema financeiro

A questão da recuperação da Hercílio Luz já deixou de ser técnica. A ponte está nas mãos dos melhores profissionais da área no mundo, que operam os trabalhos com tecnologia de ponta. O problema agora é puramente financeiro e, caso não resolvido, poderá tornar o restauro uma obra sem fim. “Não podemos dar o passo maior que a perna. Se não houver vontade política, a obra não anda”, afirma o engenheiro do consórcio e coordenador dos trabalhos de restauro, Cássio Magalhães.

“Além da vontade política é preciso criatividade para buscar esses recursos”, complementa o presidente da Deinfra, Paulo Meller. Segundo ele, o governador Raimundo Colombo tem consciência da importância da obra e “está muito preocupado” com a situação. Para isso, deixou nas mãos de Meller e do secretário de Infraestrutura, Valdir Cobalchini, a árdua tarefa de viabilizar os recursos necessários.

Para isso será montado um projeto detalhado com as formas de se obter recursos para esse tipo de obra e, enfim, iniciar a peregrinação em órgãos do governo federal, como ministérios do Turismo e da Cultura, por exemplo, além de buscar financiamento externo e até leis de incentivo à cultura, como a Rouanet. “A ponte não é só catarinense, é de todos. Ela é muito mais uma obra turística do que de infraestrutura. Não pode ser bancada exclusivamente pelo Estado”, diz o presidente.

Sem recurso, consórcio freia trabalho

A deterioração de peças vitais da ponte impede que qualquer trabalho seja executado no vão central. Para mexer no trecho de 340 metros, é preciso criar uma estrutura de sustentação provisória, uma espécie de ponte sob a ponte e assim diminuir a pressão sobre as barras de olhal e cabos. “Colocar a Hercílio Luz em segurança passa pela montagem dessa estrutura provisória. Sem ela, qualquer ação errada pode provocar uma reação em cadeira e levar a ponte ao colapso”, adverte o engenheiro Cássio Magalhães.

Somente esta estrutura, que ao término da obra será descartada para não atrapalhar o “visual” da ponte, consumirá R$ 60 milhões. O valor até está previsto no orçamento estadual para 2011, de duas formas: R$ 20 milhões pelo Deinfra e R$ 40 milhões pelo Fundo Social (programa da Secretaria da Fazenda em parceria com a iniciativa privada que pode doar 0,4% dos valores devidos em impostos em troca de redução da alíquota do ICMS).

No entanto, tratam-se de previsões orçamentárias, despesas que estão amarradas às previsões de receita. O dinheiro não está efetivamente nos cofres públicos do Estado. Ou seja, se não entrar na conta, não há como destinar o dinheiro à ponte. É justamente a busca por esse recurso que deve estar no foco do governo.

Diante da falta de garantia na obtenção do dinheiro, o consórcio não arrisca contratar fornecedores e requisitar a fabricação de peças caras. Somente a troca das 360 barras de olhal, por exemplo, produção que deve ser solicitada a uma empresa da China e leva de 12 a 14 meses para ficar pronta, custa em torno de R$ 36 milhões, conforme Magalhães.

Fundo Social

Repasses da Secretaria da Fazenda em parceria com iniciativa privada

2006 – R$ 3,6 milhões

2007 – R$ 6,9 milhões

2008 – R$ 7,9 milhões

2009 e 2010 – não houve repasse

2011 – R$ 40 milhões (previsão)

FONTE: SECRETARIA DA FAZENDA

Prolongar obra aumenta risco

Quanto mais se demora em viabilizar recursos, mais se prolonga o tempo de obra. A ação do tempo segue implacável. “A degradação sistemática da ponte ao longo do tempo é sempre um fator preocupante e, se isso (colapso) vier a acontecer, a responsabilidade passará a ser do Estado. Levantamento das condições para edital data de 2002 e estamos em 2011. Ao que tudo indica, o Estado quer levar a reabilitação do vão central para 2014, ou seja, um período de 12 anos, muito longo ao nosso entendimento”, aponta o relatório do consórcio.

“Em dois anos, tecnicamente falando, a obra pode estar concluída. Mas, no cenário atual, não posso afirmar que conseguiremos os recursos que faltam neste período. É muito provável que o prazo seja prorrogado para, no mínimo, 2014”, reconhece Paulo Meller. A intenção, conforme o presidente, é sensibilizar também parlamentares catarinenses, especialmente a bancada federal que pode propor emendas ao orçamento da União. “Todos vão ajudar”, acredita.

O custo de ser um patrimônio

A engenharia atual não aconselha uso de barras de olhal, mas o Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) exige que a Hercílio Luz permaneça com as mesmas características da época em que foi construída. “O melhor seria trocar por cabos metálicos, com vida útil de 80 a cem anos e muito mais resistentes à ação do tempo que as barras de olhal, mas o Iphan não permite. É preciso manter a ponte original”, observa Meller.

O Estado vai, então, executar uma obra de R$ 170 milhões para proporcionar vida útil à ponte por mais 30 anos, utilizando material em desuso, mas necessário. Conforme Meller, no início dos trabalhos, o Deinfra tentou de todas as maneiras convencer o Iphan a autorizar a troca, mas não houve sucesso. “Não posso avaliar o trabalho dos que passaram pelo governo antes de mim, mas posso dizer que eu faria um chamamento público para levantar o assunto e debater a questão para que o Estado não tomasse a decisão sozinho. Agora, é tarde demais para fazer isso”.

Etapas

Recuperação dos viadutos de acesso

- Orçamento: R$ 24,6 milhões

- Executado por consórcio formado pelas empresas Roca (Curitiba) e Tec (São José), entre fevereiro de 2006 e julho de 2009

- Parte do trabalho, como reforço dos “pés” dos viadutos (continental e insular), não pode ser concluída em função das desapropriações.

- Atualmente, falta o acerto de três indenizações no lado continental, duas delas estão na Justiça. Na parte insular, também resta a definição de três, uma na Justiça e duas em negociação com Deinfra.

Recuperação do vão central

- Orçamento (com aditivos): R$ 170 milhões

- Executado pelo consórcio Floripa Monumento (Espaço Aberto, CSA Group, Prointec e Bridge Tecnology) desde dezembro de 2008.

- Previsão de término era primeiro semestre de 2012, mas Estado quer prorrogar para, pelo menos, 2014.

Principais problemas da ponte

Deterioração de peças vitais em função da ação do tempo

A quatro bases de apoio das torres principais estão com sérias avarias, uma delas está trincada (o recurso para corrigir o problema ainda precisa ser adicionado ao contrato).

Uma das 360 barras de olhal está rompida desde a década de 80 e foi um dos motivos que levou ao fechamento para veículos.

Um pouco de história

- Pressionado para transferir a Capital para Curitibanos ou Lages, por causa da dificuldade de acesso à Ilha, o então governador Hercílio Luz decidiu construir uma ponte.

- A grandiosa obra, primeira ligação entre Ilha e Continente, estabeleceu Florianópolis como Capital, e seria chamada Ponte da Independência.

- Projetada pelo famoso construtor de pontes dos Estados Unidos, David Barnard Steinman, construção começou em 1922 pela empresa americana Buington & Sundstrom.

- Canteiro de obras foi instalado no Continente, no então bairro João Pessoa (São José), hoje Estreito (Florianópolis). Primeiras máquinas chegaram dos Estados Unidos, São Paulo e Dinamarca, em novembro de 1922.

- Ao descobrir que estava com câncer de estômago em estágio avançado, Hercílio Luz é presenteado com uma réplica da ponte em escala 50 vezes menor. A miniatura foi inaugurada na praça 15 de Novembro, em 8 de outubro de 1924, 12 dias antes da morte do governador.

- Como homenagem, o nome escolhido Ponte da Independência foi substituído por Ponte Hercílio Luz.

- As obras ficaram prontas e a ponte inaugurada em 13 de maio de 1926. Em 2011, completa 85 anos.

- Em 1960, piso original de madeira foi trocado por chapas corrugadas de aço completadas com asfalto.

- Em 1982, descobriu-se que uma das barras de olhal estava rompida, o que motivou a interdição ao tráfego de veículos

- É patrimônio histórico tombado por Florianópolis, Estado e União.

FONTE: FLORIPA MONUMENTO

(ND, 04/04/2011)



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