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Em defesa de Florianópolis: muito além do ufanismo delirante

Da Coluna de Carlos Damião (ND, 10/01/2018)

A propósito da história de “ame-a ou deixe-a” (a cidade), discurso vazio muito comum numa certa faixa da mídia tradicional (e também em perfis e comentários do Facebook), lembrei-me de uma polêmica de quatro ou cinco anos atrás. Eu escrevia na coluna do ND, com frequência, sobre as deficiências de Florianópolis quanto à atividade turística. Um velho amigo lia minhas notas num programa de rádio e, lá pelas tantas, bradava: “Ôw, Carlos Damião, se tu queres sossego, vida mansa, vai pra Rancho Queimado. Lá tem mobilidade urbana, os preços dos restaurantes são aceitáveis, não tem moradores de rua e tudo funciona às mil maravilhas”. Mal sabia ele da minha paixão por Rancho Queimado, paraíso rural que curto desde a infância, mas que, por enquanto, não é meu ideal de vida.

Menciono essa história para remeter a uma questão levantada por um comentarista, no perfil de uma amiga no Facebook: “A sociocultura manezinha é de criticar quem aponta as mazelas da cidade pelo simples ato fascista de se dar menos valor a quem não é nativo. Em resumo, se sois nativo te conformes, se sois de fora deves mudar”.

Como nasci aqui, mas morei um tempo razoável em outras cidades, inclusive São Paulo, não faço parte dessa sociocultura de repudiar o estranho e me conformar com o que está acontecendo nas ruas, nos becos, nas praias. Eu, como tantos nativos ou adotados, luto por Florianópolis, pelo presente e pelo futuro da cidade. Há muito a fazer e, pela minha experiência profissional, posso assegurar que pecamos (poder público, moradores, empresários) durante muito tempo. É só consultar os arquivos de O Estado do início da década de 1980: os problemas já eram imensos, porque faltava planejamento, estrutura etc. A coisa funcionava mais ou menos na linha do “deixa estar, tudo se ajeita” (comme il faut…). Pouco aprendemos, mas podemos melhorar, sem excluir o que pensam os “diferentes”, aqueles que não se alinham ao ufanismo delirante.

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