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Expedição às matas do entorno mostra degradação e ações para proteger manancial da Lagoa do Peri




Cansado da rotina competitiva e das vaidades que envolvem os bastidores das regatas profissionais, o velejador Sergio Machado Araújo, 46, deu as costas ao mar. E, sem pressa, prepara a família para substituir o ritmo nem  sempre saudável da cidade pelo ar puro que respira quando se isola no sítio de 19 hectares, no Sertão de Dentro, uma das últimas localidades essencialmente agrícolas de Florianópolis com resquícios do período colonial. Lá em cima, onde cultiva canteiros orgânicos de morangos e hortaliças e a água ainda é abundante, ele assumiu a responsabilidade que pretende dividir com quem estiver por perto: recuperar a mata ciliar e proteger as nascentes do Ribeirão Grande, um dos três reabastecedores da Lagoa do Peri, manancial que opera no limite da capacidade para abastecer cerca de 150 mil pessoas nas costas Leste e Sul da Ilha.

“O que se faz aqui em cima, reflete lá embaixo”, ressalta, com a sabedoria de quem tem o privilégio de ver o riacho cruzar o quintal de casa. E conhece de perto as veredas que, entrecortadas por antigos caminhos de caçadores e trilhas de carros de boi, levam a encostas e platôs do Morro do Peri. Lugar onde a mata atlântica em estágio secundário e trechos infestados de capim braquiária alto sinalizam o abandono de pastagens e roças de mandioca e cana, a matéria prima farta nos engenhos de farinha e cachaça que sustentaram a economia familiar até início dos anos 1980.

“Os primeiros engenhos eram movidos a moinhos d’água”, diz Sérgio, que nasceu na Barra da Lagoa, ganha a vida como protético dentário na Prainha e se interessou pelo Sertão de tanto ouvir as histórias contadas por seu Luiz, morador tradicional da Armação e avô da companheira dele. Ciente que a regeneração da mata é imprescindível para a preservação do manancial da Lagoa do Peri lá embaixo, ele subiu uma das trilhas ao mais próximo possível de nascentes, olhos d’água e vertentes  e, na propriedade dele, as cercou com arame farpado para evitar o pisoteio do gado criado solto por donos de sítios vizinhos.

Sítio é base para recuperar nascentes e agricultura ecológica

Os planos de Sérgio são ousados. A prioridade é a regeneração da mata e das nascentes para futura implantação de sítio sustentável, com produção em pequena escala  e produtos da região – frutas, hortaliças, mandioca, cana e animais domésticos. E pretende convencer aos poucos vizinhos do Sertão a seguirem o mesmo caminho, reduzindo gradativamente com as pastagens e métodos tradicionais de agricultura que possam impactar na qualidade da água. Idealista, o guardião do Peri pretende investir no potencial do sítio para captação de energias eólica e solar. “E, quem sabe vender o excedente para a Celesc”.

Para a recomposição da mata ciliar, Sérgio conta com ajuda da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente).  São do viveiro do Parque do Peri as primeiras mudas de canela, peroba, cedro e outras espécies nativas da mata atlântica primária plantadas no curso do pequeno rio de água cristalina, que desce sinuoso pelas encostas do Peri, atravessa a estradinha batizada em homenagem ao lendário Chico do Alambique [Francisco Thomaz dos Santos], forma remansos e poções que se transformam em piscinas públicas no verão. Até se misturar às águas das cachoeiras Grande e Pequena, e formar a superfície de 5,7 km² de imponência geográfica, cênica, social e científica.

Novos limites para área de proteção da água

Um dos guardiões da Lagoa do Peri, o coordenador de implantação de unidades de conservação ambiental da Floram, Mauro Manoel da Costa, 48, conhece como poucos as trilhas das nascentes do Peri. Sabe, portanto, que o futuro da gigantesca “caixa d’água” depende, basicamente, da preservação ambiental de vales, encostas e várzeas do entorno.

A ampliação dos limites do Parque Municipal da Lagoa do Peri, com anexação das APPs (Áreas de Preservação Permanente) e proteção de nascentes e cursos d’água do entorno é uma das propostas à comissão municipal que estuda a adequação da unidade à legislação federal. “É preciso apressar os mecanismos de proteção do manancial, e o caminho é a categorização da área. Defendemos unidade de proteção integral”, argumenta.

As melhores opções para a categorização, na avaliação dele, são duas: monumento natural ou refúgio da vida silvestre. Nos dois casos, além da proteção irrestrita à biodiversidade de flora e fauna, terrestres e aquáticas, são permitidas propriedades privadas com atividades sustentáveis e compatíveis com o plano de manejo do parque, ainda em fase de regularização fundiária.

Para os poucos moradores tradicionais do Sertão, como o Agricultor Bento José dos Santos, 54, que vive praticamente da mesma forma que o avô José Gustavo no sítio. Lá, longe do mar e dos vícios urbanos, ele ainda cria galinhas soltas no terreiro, o gado pasta na encosta, hortaliças são cultivadas no quintal e na encosta é plantarda a cana que vira cachaça no velho alambique herdado dos pais.

A água farta que atravessa o quintal do engenho é servida límpida na folha do caeté [folhagem típica de áreas alagadas da mata atlântica]. Não parece, mas é a mesma que, lá embaixo, ajudará a abastecer o maior manancial aparente da Ilha, antes de ser misturada ao esgoto levado ao mar pelo rio Sangradouro.

Floresta garante abundância

O maciço Sul, de onde brotam nascentes e descem vertentes dos principais tributários da bacia hidrográfica da Lagoa do Peri, se desdobra em duas cadeias de pequenas montanhas, a partir da planície entremares do Campeche. Estende-se em corcovas irregulares entre o Morro das Pedras e o Pântano do Sul, a Sudeste, com entroncamento para formar vales e planícies de cumeeiras a caminho da Caieira da Barra do Sul e Naufragados, na ponta mais ao Sul da Ilha.

O olhar a oeste revela mais montanhas. Estas, com altitude média de 300 metros acima do nível do mar, encostas parcialmente encobertas por copas características que dão o tom escurecido ao verde da mata atlântica intocada entre as manchas claras de antigas pastagens ou coivaras [roças de feijão, mandioca ou cana em áreas desmatadas com queimadas]. Rudimentar, a agricultura de subsistência resistiu até as últimas décadas dos anos 1980 nos vales que formam o Sertão.

Na subida aos morros da Chapada e do Ribeirão [ponto culminante da Ilha, a 532 metros acima do nível do mar], canelas, perobas e cedros com pelo menos 200 anos protegem a calha d’água, ora sobre leito de granito, ora de basalto, em escadarias naturais lavadas pela água cristalina e refrescante que lá embaixo forma a lagoa.

De lá, caminhos estreitos abertos a facão por caçadores, na maior parte deles escondidos pelo mato crescido, levam ao Peri de Cima. O manancial é abastecido por outros pequenos córregos das encostas que dividem o sul da Ilha em três pequenas bacias hidrográficas: Pântano do Sul, Ribeirão da Ilha e a própria Lagoa do Peri.

Sistema de apoio vem do subsolo

A estação de tratamento da Lagoa do Peri, principal manancial do sistema das costas Leste e Sul de Florianópolis, opera no limite da capacidade. Conforme estudos hidrológicos realizados pela Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) no ano 2000, ainda na fase do projeto da captação, a vazão máxima recomendada era de 200 litros por segundo, média mantida até hoje, apesar do permanente crescimento populacional.

O aumento de consumo, segundo o engenheiro sanitarista e ambiental Pery Fornari, gerente de meio ambiente da Casan, é compensado pela captação subterrânea do aquífero do Campeche.  São poços perfurados e utilizados como reserva técnica ou para auxiliar na demanda em situações emergenciais, elevando para 310 litros por segundo a capacidade de produção de água na região.

O plano “b” para aliviar a pressão sobre o manancial do Peri está vinculada ao sistema Cubatão. A Companhia conta com a inauguração das obras do flocodecantador na estação de tratamento do Morro dos Quadros, em Palhoça, e com a implantação de adutora de 1.200 milímetros na área continental de Florianópolis, ligada a outra tubulação para o bairro Itacorubi.

A vazão adicional com aumento da capacidade de tratamento (de 2.000 para 3.000 litros por segundo), segundo o engenheiro Pery Fornari, ampliará o abastecimento da Ilha pelas adutoras das Pontes Pedro Ivo e Colombo Salles. “Isso permitirá a interligação do sistema da Lagoa do Peri com o Centro, para solução dos problemas de demanda durante o pico da temporada”, garante.

Falta controle da captação “independente”

O Banco de Dados Operacionais da Casan, que leva em conta a taxa de ocupação urbana em 2014, estima em 88.444 habitantes a população atendida pela Lagoa do Peri na baixa temporada.  Durante o verão, pulou para 113.670 pessoas, com aumento de 28,5%.

Estes números não incluem consumidores independentes. Segundo a própria Casan, a captação clandestina, por poços artesianos ou tubulação improvisada em pontos estratégicos das vertentes, influencia na vazão do manancial, mas não existe controle.

“A bacia hidrográfica pertence ao Parque da Lagoa do Peri, unidade de conservação municipal, e tem a gestão da Floram”, argumenta Pery.

Apesar do alto consumo, a Casan não trabalha com a hipótese de desabastecimento. O professor Maurício Petrúcio, que coordena pesquisa do departamento de ecologia da UFSC, no entanto, garante que já viu o nível da lagoa baixo demais. “No verão, em períodos sem chuva, a margem recuou pelo menos 15 metros”, completa Mauro Manoel da Costa, da Floram, que cumpre expediente diário em gabinete de frente para a margem leste.

Sistema mantém tratamento tradicional

Na Lagoa do Peri, captação é feita em barragem de elevação de nível, ligada ao canal adutor até a estação de recalque bruto, de onde a água é bombeada para tratamento com vazão média de, no máximo, 200 litros por segundo. O reservatório está três metros acima do nível do mar, o que, segundo a Casan, afasta o risco de salinização subterrânea do manancial.

A água bruta passa primeiramente pelo processo de coagulação. Nesta etapa é adicionado o sulfato de alumínio para aglutinar partículas coloidais e retirar as impurezas. Depois, passa por bateria de filtros descendentes formados por camadas de areia e seixos. Durante a filtração, são retidos os flocos formados no processo de coagulação.

A limpeza dos filtros é feita por retrolavagem contra corrente, e o efluente resultante deste processo é tratado antes de ser devolvido ao canal do rio Sangradouro e levado ao mar. Para completar o processo de tratamento, são adicionados cloro [desinfecção] e flúor, como determina programa de prevenção de cáries dentárias.

Depois de tratada, á água da Lagoa do Peri é bombeada a reservatórios da região e distribuída à população – entre 90 mil cerca de 150 mil pessoas. A produção da estação varia de acordo com a demanda: em média 178 litros por segundo no inverno; e, no verão, 197 litros por segundo.

Proliferação de alga intriga pesquisadores

Invisível a olhos nus, a ameaça ao manancial do Sul da Ilha tem nome e sobrenomes esquisitos: Cylindrospermopsis raciborskii. Mais comum em ambientes aquáticos poluídos, a cinobactéria tem sido encontrada em grande densidade e dominância também na Lagoa do Peri. O mais intrigante é que a espécie em estudos por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina tem potencial para produzir toxinas que, dependendo da concentração, podem prejudicar a biota e ser nociva ao consumo humano, mesmo em água tratada.

O tratamento com cloro não elimina o risco à saúde humana. “Testes realizados comprovaram a capacidade de produção de toxinas em laboratório”, alerta o professor Maurício Petrúcio, 39, do Limnus (Laboratório de Ecologia de Águas Continentais), que coordena pesquisas iniciadas em 2007 e busca resposta para a origem e as consequências da alga. “É importante ressaltar que até agora não foram encontradas em quantidade potencialmente prejudicial ao consumo humano”, avisa.

O ambiente preferido dela são lagos, lagoas e reservatórios de água doce eutrofizados, ou seja, com altas concentrações de nitrogênio e fósforo presentes em material orgânico. “Concentra-se no fundo, longe da radiação, solar e luminosidade, com grande capacidade de fixar nitrogênio molecular”, explica o professor Petrúcio. O trabalho é um dos 71 que receberam recursos do Fundo Newton, em parceria com a Fapesc (Fundação de Amparo à Tecnologia do Estado de Santa Catarina), entre 318 propostas apresentadas.

O monitoramento mensal da qualidade da água do Peri é feita desde 2007, com armazenamento de informações de temperatura, influência dos ventos, radiação, condutividade, oxigênio, pH [potencial hidrogeniônico] e nutrientes. O estudo também destrinchou a estrutura da comunidade aquática, como algas, invertebrados e peixes. Em 2014, com recursos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), os pesquisadores aumentaram a frequência da coleta de dados, agora feita a cada 15 minutos por sensores instalados em boia fixada na área mais central da lagoa.

Casan descarta contaminação

A presença da alga Cylindrospermopsis raciborskii em grande densidade não ameaça a potabilidade do manancial. Quem garante é o gerente de meio ambiente da Casan, Pery Fornari Filho. Segundo ele, a espécie não é exclusiva de ambientes poluídos e é considerada como “cosmopolita”, por se proliferar em água doce limpa, como é o caso da Lagoa do Peri, ou poluída. “E em qualquer temperatura, como em países tropicais ou temperados”, completa.

No caso da Lagoa Peri, testes diários demonstram que se trata de ambiente sadio, com água em condições de tratamento para ser utilizado no abastecimento da população.

O engenheiro ressalta que o monitoramento de toxinas é realizado desde 13 de setembro de 2006, com análises semanais de contagem e identificação de cianobactérias e de análise de cianotoxinas. “Apesar da presença de Cylindrospermopsis raciborskii, os resultados sempre estiveram de acordo com os limites máximos permitidos pela legislação”, tranquiliza.

O monitoramento da Casan segue os parâmetros da Portaria 2914/2011 do Ministério da Saúde, que trata da qualidade de água para abastecimento público. “Portanto, é muito baixo o risco de ocorrer uma produção de toxinas acima do limite máximo permitido”, diz.  Ainda segundo o engenheiro Pery, no caso de a concentração de cianotoxinas alcançar níveis acima do permitido, não seria possível sequer o uso para o lazer e contato primário, como banho.

Como medida preventiva, a Casan mantém sistema de monitoramento permanente que compõe o gerenciamento de alertas baseado nas recomendações do Ministério da Saúde, por meio da Funasa (Fundação Nacional de Saúde). Também segue normas  propostas pela AWWA (American Water Works Association Research Foundation), adaptadas às condições brasileiras.

Estudo será aprofundado na Inglaterra

Com recursos do Fundo Newton, os quatro pesquisadores orientados pelo professor Maurício Petrúcio observam, ainda, vazão e qualidade da água dos principais abastecedores da lagoa, os riachos Cachoeira Grande e Pequena, na margem oeste, e Ribeirão Grande, ao sul. A meta, explica Petrúcio, é calcular o balanço hídrico da bacia e aprofundar o estudo das espécies.

“Desta forma, será estabelecida a relação entre a biodiversidade e a qualidade da água”, explica. Os dados obtidos pelos pesquisadores da UFSC na Lagoa do Peri serão comparados com a biodiversidade de outros lagos de água doce da Europa, em parceria com a Universidade de Roehampton, na Inglaterra.

O objetivo é obter indicadores biológicos e entender o funcionamento destes ecossistemas e os efeitos das alterações climáticas sobre a qualidade da água. “Estas informações ajudarão a encontrar estratégias para conservação e recuperação dos mananciais”, diz. Segundo Petrúcio, o detalhamento da dos riscos à saúde pública depende de sensores específicos ainda não contemplados nos recursos disponibilizados à pesquisa.

Sangradouro fecha ciclo da poluição

Na outra ponta, o rio Sangradouro simboliza o oposto do esforço para recuperação e preservação das nascentes. Válvula de escape com vazão em sentido único, em direção à foz, sem influência das marés, o canal é um braço morto da lagoa.

Assoreado, aterrado em vários trechos e espremido entre muros e casas, nele é despejada a maior carga do esgoto doméstico das comunidades da Lagoa do Peri, Morro das Pedras, Armação e Matadeiro.  Há trechos que o leito mais parece um tapete verde, coberto pelas algas que se proliferam em água com excesso de material orgânico e contaminação por coliformes fecais.

Em pouco mais de três quilômetros, atravessa a Armação, paralelamente à praia, até juntar-se às águas do rio Quincas, que desce do Pântano do Sul também poluído, para desaguar, escuro e contaminado entre a Ponta das Campanhas e o Matadeiro. Ali, o selo com a inscrição “imprópria” é permanente na placa da Fatma (Fundação Estadual do Meio Ambiente) que mede o índice de poluição e de balneabilidade, da praia e do rio.

Para o chefe do Departamento de Unidades de Conservação da Floram, Elias Pires, 47, morador tradicional da região, a falta de saneamento básico na Armação e bairros vizinhos está trazendo problemas ambientais irreversíveis à bacia da Lagoa do Peri. “É impossível conviver mais tempo com tanto esgoto. As comunidades cresceram, e os rios recebem os efluentes sem tratamento”, critica.

( Notícias do Dia Online, 22/03/2015)



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