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“Uma cidade só será criativa se unir tecnologia e cultura”




Para a consultora internacional, Florianópolis tem tudo para se consolidar como uma cidade criativa – tal qual Eindhoven, na Holanda. Desde que a tecnologia se conecte com a cultura local.

Qual a relação entre novas tecnologias, o consumo de arte e cultura, o futuro do trabalho, e a cidade onde vivemos?

O futuro do trabalho está sendo redesenhado pela ascensão de uma série de novas tecnologias (big data, inteligência artificial, machine learning, cloud computing), que farão com que, dentro de algumas décadas, 50% das atividades profissionais que hoje existem sejam extintas e abram frente para que atividades que ainda não existem representem 50% do trabalho do futuro.

E as cidades e a cultura, onde se encaixam nisso?

Na avaliação da economista e doutora em Urbanismo Ana Clara Fonseca, que também é embaixadora da ONU em políticas culturais, o futuro do trabalho depende das cidades.

Mas as cidades precisam unir seu potencial de tecnologia e inovação à cultura e história local. Ela esteve em Florianópolis no início de julho a convite do Núcleo de Empreendedores Culturais da Associação Comercial e Industrial (ACIF), onde conversou com representantes do setor de cultura e de tecnologia e, à noite, lotou o auditório do Museu da Escola Catarinense para falar sobre Economia Criativa.

“A tendência é cada vez mais as coisas serem complementares. Economia criativa é a fusão da manifestação da criatividade no que se convencionou chamar de lado esquerdo e direito do cérebro: tanto a parte da ciência e da tecnologia quanto as artes e cultura. A criatividade alimenta a cadeia de inovação”.

Criado há três meses e reunindo oito empresas que faturam R$ 12 milhões por ano, o Núcleo de Empreendedores Culturais encarou o desafio de desenvolver, em conjunto com o mercado local e o poder público, a política cultural em Florianópolis e criar indicadores para inserir a cultura no cenário econômico da cidade. Segundo Paula Borges, coordenadora do Núcleo, “queremos mostrar que o aumento na taxa de captação de recursos e execução de projetos não significa redução orçamentária aos cofres públicos, mas um estímulo para formação de novos públicos consumidores, geração de emprego e renda, no fomento da arte e da educação”. Por isso, uma das primeiras ações foi trazer a consultora internacional a Florianópolis para sensibilizar entidades e empresários com relação ao potencial cultural da cidade.

Em entrevista ao SC Inova, Ana Clara avalia que a capital catarinense está fazendo um trabalho promissor no desenvolvimento da tecnologia, mas que é preciso conectar este setor que cresce e gera empregos de alta qualificação ao lado cultural da cidade o que, segundo ela, seria o motor da economia criativa. Alguns dos livros e ensaios que ela escreveu sobre o tema estão disponíveis online.

Confira a entrevista:

SC Inova – Como você percebe o potencial de Florianópolis para se tornar uma cidade criativa?

Ana Clara Fonseca – Minha percepção é de forasteira, mas eu tenho a impressão – e eu venho a cada ano ou dois – que o setor de tecnologia é super promissor mas ele é desconectado da cidade. Existem ilhas dentro de uma ilha. Do ponto de vista é muito legal pra quem está aqui morar numa cidade com alta qualidade de vida e potencial profissional, mas acho que a cidade como um todo não se beneficia plenamente de todos esses saberes e todo esse conhecimento.

Eu adoraria que, numa próxima vinda, eu visse como as pessoas que estão no meio da tecnologia também utilizam a cidade como laboratório de prova, como radar de tendências, para criar uma conexão maior entre o trabalho do dia a dia e o território no qual esse trabalho acontece.

“Não é só qualidade de vida, uma cidade criativa tem que gerar um vínculo afetivo”, aponta a especialista durante palestra em Florianópolis.

SC Inova – Como uma cidade cria uma marca de inovação e cultura?

Ana Clara – O ponto de partida é o mapeamento de singularidades de uma cidade. Não adianta criar uma marca desconectada daquilo que a cidade oferece, como se fosse uma empresa. Esse mapeamento é desde o que a cidade tem de peculiar, a cultura, artes, o jeito de ser. Tem uma cidade na Virgínia (EUA) que a população tinha fama de grosseira e mal educada – aí uma cafeteria na cidade decidiu oferecer promoção se o cliente pedisse “por favor” e “obrigado”.

Em Eindhoven, na Holanda, um projeto uniu elementos que identificam a cultura e a economia local: as bicicletas, seu maior artista, Van Gogh e a empresa mais conhecida, a Philips. Com isso, criaram uma ciclovia iluminada com LEDs desenvolvidos pela empresa e essas luzes reproduzem o famoso quadro Noite Estrelada.

SC Inova – E como isso pode se desenvolver aqui com o potencial local?

Ana Clara – No ponto de vista do desenvolvimento da inovação, vejo que Florianópolis está num caminho promissor. Estava conversando com o pessoal da ACATE, da estrutura criada em São Paulo para conseguir difundir melhor as tecnologias que saem daqui para atrair talentos de outros lugares para cá. O importante é também nutrir as pessoas que são daqui, elas se verem como beneficiadas deste movimento.

Não é só qualidade de vida, também conta o vínculo afetivo. Isso gera uma valorização do que a cidade oferece, criação de autoestima, oportunidades – acho que a gente conseguiria gerar mais engajamento das pessoas sobre o potencial de transformação de Florianópolis. Você só defende aquilo que você ama, aquilo que você respeita.

(SC Inova, 13/07/2017)



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