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Um futuro mais inteligente

Assaf Biderman – Diretor associado senseable city lab do MIT

Pensar fora da caixa é uma maneira de dizer que é preciso encontrar uma solução inovadora, que fuja do arroz e feijão. Também é o tema do Challenge of Innovation 2012, evento fechado que Florianópolis recebe hoje e amanhã. O desafio, promovido pela Fundação Certi, será estimulado por pesquisadores do MIT, a universidade americana que é uma das mais influentes do mundo hoje. Entre os palestrantes estará Assaf Biderman, com formação em física e Interação homem-computador, que se dedica a estudar o impacto da tecnologia no futuro das cidades.

Diário Catarinense – Como se define uma cidade inteligente?

Assaf Biderman – É uma boa pergunta. Mas acho que precisamos perguntar primeiro o que está acontecendo com as nossas cidades. Estamos vendo urbanização global. Em 2008, atravessamos uma barreira invisível. Mais da metade da população já vive em cidades, que são interessantes por múltiplas razões. Elas cobrem apenas 2% da terra em espaço habitável e ainda assim consomem mais de 75% da energia. Os desafios das cidades de alguma maneira se fundiram aos principais desafios do planeta. Se você resolver algumas destas questões, obterá um grande impacto em escala global. Dado o fato da tendência de urbanização estar apenas crescendo, existe um grande esforço neste sentido, especialmente nas economias emergentes.

DC – Como as mudanças tecnológicas influenciam nas cidades?

Biderman – Estamos vendo uma grande mudança da tecnologia: microprocessadores ficando pequenos e baratos em todo lugar; conectividade de rede ficando onipresente. Há um relatório da Ericsson que prevê que, em 2020, existirão 20 bilhões de dispositivos online. Estamos falando de uma ordem de magnitude maior do que o número de pessoas neste planeta. Isso significa que estes dispositivos, este tipo de conectividade digital. ou capacidade de computação, não irá para os nossos bolsos, irá para objetos ao nosso redor, para infraestrutura urbana, sensores de monitoramento do ambiente. Um jeito de pensar sobre isso é que as cidades vão se tornar uma espécie de computador ao ar livre e isso vai remodelá-las nas próximas duas décadas.

DC – Você poderia ter alguns exemplos práticos?

Biderman – Nós poderíamos monitorar que o está acontecendo de uma maneira que nunca fizemos antes. Ao monitorar, é possível analisar dados, construir inteligência sobre esses dados e, com o conhecido criado, realimentar a cidade e começar a atuar de uma maneira inteligente. Se nós tivermos uma rede de carros elétricos, poderemos sincronizá-los a uma smart grid (rede elétrica inteligente) de modo que você poderá pegar a energia onde há mais disponibilidade e levá-la para onde ela é mais necessária. Você pode construir este sistema, reduzir as cargas, eliminar picos de consumo e etc. Você pode fazer a mesma coisa para semáforos, equipes de emergência, pode imaginar aplicações em muitas áreas, como na qualidade do ar, e assegurar que está provocando impacto em áreas mais prejudicadas. Tudo isso se torna possível quando se consegue monitorar e atuar na infraestrutura em tempo real.

DC – E qual o papel das pessoas neste contexto?

Biderman – Acho uma coisa interessante dizer: “É muito bom você poder sincronizar a infraestrutura”, mas, no fim do dia, a cidade é uma coisa rígida. É uma grande massa de concreto, aço e asfalto. O que faz uma cidade funcionar são as decisões que nós tomamos a cada minuto. Nós cidadãos. Se nós realmente quisermos ver uma cidade inteligente, os cidadãos são os verdadeiros responsáveis pela mudança. A ação realmente tem que passar pelos cidadãos se você quiser ver uma grande mudança. Vou mostrar na apresentação alguns projetos relacionados ao rastreamento do lixo, de massas, qualidade do ar, fluxos de energia. Este tipo de mensuração se tornou possível por causa da escala urbana atual, da nossa infraestrutura digital. Ela quase se tornou o sistema nervoso das nossas cidades porque estão digitalizadas.

DC – Como é possível conseguir os dados necessários para tornar uma cidade inteligente?

Biderman – Precisamos permitir que qualquer um conecte os seus dados a plataformas abertas, algo como um sistema operacional urbano, onde se plugam dados de um indivíduo privado, um sensor de temperatura de jardim ou um operador de frete com uma frota de 200 caminhões. Colocar a localização online, conectando terabytes de dados em tempo real para uma infraestrutura de distribuição ou aplicações de terceiros terem acesso. Isso requer infraestrutura tecnológica para buscar dados, definir permissões de acesso para controle e segurança, para assegurar que é possível agregar dados.

DC – Quais os principais desafios para tornar isso viável?

Biderman – Existe um desafio tecnológico aí. Indo além do gerenciamento primário da infraestrutura, que é sincronizar semáforos, isso permite criar um ambiente digital para o qual todos podem desenvolver uma aplicação. Claro que você deve definir o acesso, direitos, privilégios, não é todo tipo de dados que deveria ser aberto para todo mundo, mas se você tiver uma plataforma em que você é um empreendedor ou uma ONG sem fins lucrativos, ou uma grande indústria ou governo local com possibilidade de desenvolver soluções para a cidade, você deveria poder acessar esta plataforma. Faça uma proposta e que vençam as melhores. Isso abre as portas para um novo tipo de inovação que não vimos ainda. Comparável ao que nós vimos nos últimos 20 anos no mundo virtual com a internet, é uma inovação tremenda. Nós podemos abrir uma porta para uma nova onda de inovação, que tocará em problemas que o planeta está enfrentado hoje, como mudança climática, segurança, educação, saúde pública. Isso pode se tornar potencialmente uma mudança muito poderosa. Se tivesse que pensar o que é uma cidade inteligente, diria que ela é uma plataforma que se abre para uma ampla base de acesso. Você pode acessar muitas e muitas mentes para pensar juntas sobre os problemas.

DC – Podemos pensar em mais participação dos cidadãos?

Biderman – Pense no que aconteceu com o crimespotting, um projeto em Oakland, na Califórnia, que começou com um designer que pegou todos os registros policiais e colocou em um mapa. A princípio, obviamente, políticos ficaram com medo, e os policiais não ficaram felizes quando ficou tão visível onde os crimes aconteciam. Fazia a cidade não parecer tão boa. O público percebeu onde é seguro e onde não é e começou e adicionar informações. Isso ficou interessante como um relacionamento muito mais transparente entre o governo e os cidadãos. Crime pode ser um problema porque você não quer que ele seja divulgado antes que as equipes de emergência cheguem ao local, mas pense no 311 em Nova York. É um phone app onde cidadãos podem reclamar de problemas na infraestrutura urbana. E eles abriram os dados para que as pessoas desenvolvessem aplicativos. A iniciativa permitiu à cidade realocar recursos. Pessoas contratadas pela prefeitura para andar pela cidade à procura de lâmpadas de iluminação pública queimadas, coisas assim. Você pode usar os olhos de milhares de pessoas na cidade, de um grande grupo. As pessoas adoram reclamar, é fácil. São informações gratuitas em uma larga escala, muito mais confiáveis e visuais – eles podem mandar fotos também. E a cidade se tornou capaz de responder às reclamações, ficou mais reativa. A relação entre governo e cidadãos se torna muito mais rica.

DC – Em 2006, seu laboratório publicou uma dos primeiros mapas dinâmicos de uma cidade no mundo. Qual foi o impacto disso?

Biderman – No começo, o que fizemos foi uma parceria com a cidade de Roma, a TIM, maior operadora de telecomunicações do país, o sistema de transporte público e algumas companhias de taxis. Nós juntamos todos este dados, combinamos e criamos mapa completo da cidade em tempo real. Quando começamos o projeto, o difícil foi dizer às empresas que combinaríamos os dados. Havia um custo de oportunidade, um medo envolvido. Fizemos funcionar dizendo: não vamos dar os seus dados para outra empresa nem os deles para uma terceira. Vamos colocar no MIT todos os servidores e os algoritmos e os dados serão analisados e enviados de volta em tempo real. Eles ficaram confortáveis com isso. O MIT virou uma Suíça, onde todos os dados são colocados sem risco. Nos focamos no valor de combinar diferentes tipos de dados. A conversa ficou mais fácil. Houve um entendimento de que há valor nisso com potencial monetário mas também potencial para provocar impacto na qualidade das nossas vidas nas cidades.

DC – E o projeto de rastreamento de lixo em Seattle, o Trash Track, elaborado pelo seu laboratório?

Biderman – Foi um projeto iniciado em Seattle, em 2009, que ainda continua em outras partes dos EUA. Começou com uma pergunta simples: Para onde o lixo realmente vai? As empresas responderão: 10% vai para tal lugar, 20% para lá. Resumindo: o gerenciamento do lixo hoje não é muito diferente de cem anos atrás. Há a reciclagem, uma grande inovação. Mas se você pensar nas cadeias de produção, elas se tornaram globais. Principalmente eletrônicos. Pegue um laptop médio e o desmonte. Você verá componentes produzidos em diversos países. Para o Trash Track, nós queríamos seguir itens específicos. Nós escolhemos 150 pessoas e desenvolvemos um sensor que funcionaria por um ano. Então fomos às casas destas pessoas e etiquetamos os sensores no lixo, 300 itens no total. O mais interessante foi conseguir uma macroimagem de como o sistema funciona. Por exemplo, vimos que produtos que reciclamos há um século, como papel, metais e vidro chegaram a sua destinação final em poucos dias. Muito rápido e eficiente. Mas o lixo eletrônico, às vezes, viajava 6 mil quilômetros. Nesta complexa cadeia, ele parava de vez em quando em um lugar por longo tempo porque há muitas empresas envolvidas. É um exemplo de como um instrumento invisível, a tecnologia digital, pode iluminar alguns processos.

DC – Há alguma cidade do mundo que seja referência?

Biderman – Não existe um lugar de referência no mundo atualmente, para ser honesto. Muitas pessoas estão entendendo a necessidade, e esta é a boa notícia. Wikicity Roma: no mapa da cidade, deslocamento das pessoas em tempo real

Outros palestrantes do MIT escalados para o challenge of innovation
ALEXANDER SLOCUM – ENERGIA
Pesquisador na área de nanotecnologia, engenharia de alta precisão, design industrial e de produto, já recebeu vários prêmios, incluindo o Earl E. Walker de Melhor Jovem Engenheiro de Manufatura pela entidade americana SME Education Foundation. Em 1985, Slocum terminou o Ph.D. pelo MIT. Entre os seus interesse atuais, estão o desenvolvimento de instrumentos de energia renovável para colheita e máquinas de armazenamento. Recentemente, ele atuou no DoE Science Team, para controlar o vazamento de óleo no Golfo do México.
RAMESH RASKAR – CONVERGÊNCIA DIGITAL

Líder do grupo de investigação “Camera Culture”, dos laboratórios de pesquisa da Mitsubishi. Raskar estuda fotografia computacional e a interação entre humanos e computador. Entre as suas contribuições mais recentes, estão a evolução da captura de movimento de pessoas ou objetos, usada desde em aplicações médicas até na indústria cinematográfica e a tela BiDi, que transporta, por exemplo, a imagem de uma pessoa se movimentando para dentro da tela, quase como em um espelho. Raskar tem mais de 40 patentes americanas pelas suas invenções.
ANDREW MCAFEE – TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC)

Doutor pela Harvard Business School, McAfee estuda como a tecnologia da informação afeta o mundo dos negócios. Ele investiga o impacto da TI na maneira com que as empresas se organizam, competem e atingem resultados. Em 2009, publicou o livro Enterprise 2.0, além de colaborar para publicações como Washington Post e Financial Times. Em 2008, foi eleito pela editora especializada Ziff-Davis uma das cem pessoas mais influentes do mundo na área de TI.
ANA LOPES – LICENCIAMENTO DE PRODUTOS TECNOLÓGICOS

Atua como estrategista de Desenvolvimento Empresarial na E Ink Corporation, a líder mundial no desenvolvimento de leitores digitais. Anteriormente, Ana foi responsável pelo licenciamentos de tecnologias do MIT, quando deu suporte às áreas de energia limpa e engenharia química. É formada em Astronomia e Física pela Universidade de Toronto, no Canadá e atualmente está cursando um MBA no Babson College em Boston, EUA.
MICHAEL SCHRAGE INOVAÇÃO E EMPREENDEDORISMO

É pesquisador na área de gerenciamento de risco da inovação. Autor de diversos livros sobre ferramentas e tecnologias capazes de incentivar a inovação, como Shared Mind e Serious Play, também colabora com os jornais Financial Times, Washington Post e Wall Street Journal. Além disso, presta consultoria para empresas como Microsoft, Google, Siemens e Embraer.

(Por Eduardo Kormives, DC, 29/03/2012)

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