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Crustáceos comprovam impactos de compostos químicos liberados em sistemas de refrigeração e plásticos




“Não temos dúvidas sobre as vantagens de utilizar aparelhos de ar condicionado, geladeiras, automóveis ou até mesmo um simples copo plástico. No entanto, tais benefícios podem estar vinculados a uma série de problemas ambientais que trazem sérias conseqüências para a saúde humana e para a manutenção dos ecossistemas”. O alerta é resultado do trabalho conjunto de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG) para estudo do impacto da radiação UVB e do bisfenol A em crustáceos.

A radiação UVB, que não atinge naturalmente a superfície terrestre, vem sendo intensificada pela destruição da camada de ozônio por substâncias como os clorofluorocarbonos – compostos químicos liberados durante a utilização de sistemas de condicionamento de ar, compressores de geladeiras e alguns tipos de sprays. Estas substâncias comprometem a função primordial da camada de ozônio, que é reter a passagem de alguns comprimentos de onda da radiação solar, entre elas a radiação ultravioleta B (UVB).

O bisfenol A faz parte da constituição de copos plásticos descartáveis e garrafas pet. Está também presente no revestimento de latas de conservas, de refrigerantes, de cervejas e até mesmo em mamadeiras. Quando estes recipientes são aquecidos ou expostos a mudanças de pH, liberam o bisfenol A, que mimetiza ação de hormônios estrógenos, podendo provocar alterações hormonais capazes de comprometer órgãos como o cérebro, a próstata e as glândulas mamárias, ou provocar distúrbios durante a puberdade.

As pesquisas (são vários projetos desenvolvidos paralelamente) evidenciam os efeitos da radiação UVB e do bisfenol A em camarões e caranguejos. A execução dos projetos tem sido viabilizada com recursos financeiros dos órgãos de fomento à pesquisa, como CNPq, Faperj, Fapesc e Faperg. Os estudos são realizados através de metodologias que utilizam marcadores moleculares em diferentes tipos de células do sistema nervoso e visual destes crustáceos, especialmente células gliais, que com os neurônios participam das funções do sistema nervoso.

“Resultados obtidos no sistema visual de caranguejos adultos após a exposição à radiação ultravioleta mostram alterações nos fotorreceptores compatíveis com as alterações típicas de morte celular”, descrevem as professoras Silvana Allodi, Nádia Miguel e a bióloga Inês Wajsenzon, da UFRJ. De acordo com as pesquisadoras, algumas substâncias celulares que são ativadas e que podem causar morte celular foram avaliadas e o grupo agora pretende verificar se as células têm competência para ativar seus mecanismos de defesa e recuperar suas funções.

Além de indivíduos adultos, são estudados ovos de crustáceos, em experimentos que simulam a incidência da radiação UVB nos ambientes naturais. Os resultados obtidos na UFSC e UFRJ (estudos desenvolvidos pelas professores Yara M. R. Müller, Dib Ammar, Evelise Nazari e Silvana Allodi) evidenciam alterações celulares e moleculares produzidas pela radiação no desenvolvimento embrionário de camarões de água doce. “Interessante também é notar que na natureza foram coletados animais que apresentavam alterações similares ao observado após exposição à radiação no laboratório, o que sugere que a dinâmica dos ecossistemas já esteja sendo afetada pelas condições atuais de radiação solar”, avaliam as equipes.

Na FURG, o efeito do bisfenol A tem sido avaliado no desenvolvimento de larvas de caranguejos pelo professor Pablo Elias Martinez, que trabalha em colaboração com a UFRJ. “Freqüentemente, os mamíferos são os modelos de estudo nessas investigações, devido a sua maior semelhança com os seres humanos. No entanto, muitos dos efeitos desses compostos químicos podem ser melhor avaliados em outros grupos, como nos crustáceos, cujos sistemas orgânicos são estruturalmente menos complexos e ao mesmo tempo mantém um caráter conservativo de muitos mecanismos celulares e moleculares”, explicam os pesquisadores. De acordo com o grupo, esses animais habitam ambientes variados, como o terrestre, de água doce e salgada, além de suportar condições extremas de temperatura, o que os credencia como bons modelos de estudo, tanto em ambientes naturais, como em laboratório.

“Os crustáceos são um excelente modelo animal em pesquisas que investigam os efeitos de fatores ambientais sobre os organismos animais e suas conseqüências para o meio ambiente”, destacam os professores. Os resultados, publicados em revistas científicas e apresentados em congressos, ressaltam a relevância da pesquisa, que evidencia em análises celulares e moleculares os efeitos deletérios dos clorofluocarbonos e do bisfenol A.

Mais informações:

UFSC:
- Yara Maria Rauh Muller (yararm@ccb.ufsc.br) – (48) 3721-9799
- Evelise Maria Nazari (evelise@ccb.ufsc.br) – (48) 3721-9799

UFRJ:
- Silvana Allodi (sallodi@histo.ufrj.br) – (21) 2562-6431

FURG:
- Pablo Elías Martinez (pabloeliasm@gmail.com)

(Agecom, 31/10/2008)



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