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Enquanto o governo não divulga um novo inventário nacional mostrando como estão as emissões de gases-estufa do País (o único, e já desatualizado, é de 1994), algumas empresas brasileiras estão dando o primeiro passo para compreender a situação do próprio setor.
No começo de maio foi lançado o Programa Brasileiro de Inventário Corporativo de Gases de Efeito Estufa, que coloca à disposição de empresas interessadas uma metodologia para aferir essa produção. Conhecido como Protocolo de Gases de Efeito Estufa (ou GHC Protocol, na sigla em inglês), o programa permite a realização de um levantamento minucioso. Com isso, a companhia tem como identificar o tamanho do impacto que está causando ao ambiente e descobrir onde, no processo produtivo, ela pode interferir para reduzir as emissões.
“Projetos voluntários de redução das emissões ainda são muito tímidos no Brasil. Muitas nem sequer sabem o quanto emitem. Essa é a etapa zero”, afirma Rachel Biderman, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), que disponibilizou o GHC Protocol no Brasil. “Mas o alarme do aquecimento global é realista e temos um prazo curto para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Já é hora de trabalhar com força total na mitigação.” Vinte empresas de setores de grande impacto, como o automotivo, o metalúrgico e o químico, já ingressaram no programa.
‘CARBON FREE’ MESMO?
Segundo Rachel, essa etapa é fundamental antes de tomar alguma atitude. “Senão ocorre o que estamos vendo por aí. Essa coqueluche de empresas dizendo que são carbono neutro, que saem plantando árvore por aí sem nem sequer saberem quanto emitem e quanto têm de plantar para compensar suas emissões”, afirma.
Neutralização de fato, lembra ela, é não emitir tanto e compensar com plantio só aquilo que não é possível reduzir. “Não estou dizendo que plantar árvore seja ruim. É bom por uma série de motivos, mas muitos dos projetos que vemos hoje não podem ser chamados de trabalhos de neutralização de carbono, quando muito são de recuperação ambiental.” O especialista no mercado de carbono Antonio Lombardi concorda: “Plantar árvore em tudo quanto é lugar pode ser uma tremenda falácia. Não é salvo-conduto para a consciência.”
Rachel dá como exemplo de lição de casa bem feita uma iniciativa da indústria de cosméticos Natura. A empresa inventariou não somente as emissões da fábrica, como de toda a cadeia de seus produtos. Isso inclui as atividades dos fornecedores, o processo de extração dos ingredientes, o transporte, até o descarte de embalagens. Na soma final, descobriu no ano passado que emite 184 mil toneladas de CO2-equivalente e se propôs a reduzir 33% disso ao longo de cinco anos.
De um lado a empresa vem mudando sua matriz energética e do outro financia projetos de reflorestamento e de reciclagem de embalagens para compensar o que não conseguir reduzir. E ainda deve lançar uma moda: um “rótulo-carbono” que trará as informações de quanto foi emitido para produzir um produto.
(Estadão, 05/06/08)

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