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Da coluna de Sérgio da Costa Ramos (DC, 13/02/08)
Se a ecoescuridão que se hospeda na Ilha, degradando o meio-ambiente que finge proteger, pontificasse na Lisboa dos “Descobrimentos”, o mais famoso dos trapiches de Lisboa seria embargado – ali, no colo do Rio Tejo.
Não teria existido a Torre de Belém e o Novo Mundo estaria por ser descoberto.
De repente, os trapiches, esses apêndices que a aventura humana plantou à beira-mar ou à beira-rio, deixaram simplesmente de existir nesta Ilha dos casos e ocasos raros, quase órfã de navegadores e de marinas. Até o trapiche que construíram na ex-praia do Muller, às margens da Beira-Mar, mais parece um Frankenstein pernalta – filho de algum monstrengo anfíbio do Lago Ness.
A falta do hábito fez o trapiche torto.
A simples perspectiva de construção de uma marina para receber transatlânticos e equipamentos de turismo, à beira-mar do Continente, ouriça a ecoteocracia, que já se mobiliza para a habitual corrida de obstáculos.
Chega a ser totalmente irracional essa ojeriza à construção de trapiches, como se uma ilha devesse repudiar o mar. Trapiches são promontórios de madeira ou de cimento, uma ponte entre os homens e o horizonte onde se curva a Terra. São meros “cais” ou docas à beira-mar, necessárias aos homens que se relacionam com o mar, seja para o comércio, para uma pescaria vadia de fim de tarde ou até para o descobrimento da América.
Dirão que Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio, Sebastião Caboto e outros comodoros ilustres embarcaram em suas caravelas partindo de escaleres – simples “batelões” na linguagem chã dos manécratas. Mas essas canoas, carregadas de víveres para abastecer as naves-mães, de onde teriam saído? Dos trapiches, é claro.
Pedro Álvares Cabral, está provado, zarpou da “marina” da Torre de Belém. Se fosse desembarcar na Ilha, sentiria falta do Miramar e do trapiche da Alfândega. Ou teria que fundear ao largo, com a ajuda de uma poita.
O trapiche é, pois, o começo e o fim de tudo. Das grandes descobertas, das grandes (e pequenas) pescarias, dos encontros furtivos entre navais e damas da noite – como em Capitães de Areia, de mestre Jorge Amado.
O trapiche do Miramar tanto servia para um mijão noturno – e, portanto, colaborava para o “alívio” popular – como servia de tapete vermelho para as “Hosanas” ao Imperador, como aconteceu com Pedro II em sua segunda visita à Ilha, em 1865, sob trepidante foguetório.
E, sobre ser o que é, o tombadilho de um navio inerte, o passadiço que serve à aventura do homem, o trapiche é a escotilha aberta para o “imaginário” das viagens.
Tivemos vários em Florianópolis. O do Veleiros da Ilha, o do Miramar, o da Alfândega, os da Rita Maria, o do Estaleiro Arataca, o da Praia de Fora. Natural que esses braços postiços se fizessem ao mar numa Ilha banhada por duas baías.
A Baía Sul, no lado insular, tinha o maior número de trapiches: quatro. Ao norte, pontificava o da Praia de Fora. E antes que o Miramar se transformasse num valhacouto de acadêmicos do verbo “urinar”, com direito à ostras ao molho de uréia nos degraus de atracação, as lanchas traziam o povo do Continente – e era primeiro “ao povo” que os trapiches serviam.
Trapiches são marinas. Que mal há em modernizar os trapiches e equipá-los com banheiros e instalações decentes?
Pedro Álvares Cabral, Fernando Pessoa e o povo da Ilha de Santa Catarina agradeceriam.

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